21/04/2016 (22:33)

Preservação de florestass já tem 120 entidades, mas perda é de 1,3 milhão de km2

Entidades da sociedade civil estão unidas para preservar as florestas de todo o mundo, que em 25 anos perderam 1,3 milhão de km2. Quase totalidade da destruição é atribuída à produção de alimentos e a pressão aumenta sempre, pois há projeção de que a Terra terá 9 bilhões de habitantes lá pelo ano 2050. Técnicos acreditam no conservacionismo.

 

Em todo o mundo, entidades de conservação das florestas e representantes do agronegócio parecem dois grupos absolutamente separados e inconciliáveis. Nos últimos 25 anos, o planeta perdeu 1,3 milhão de km2 de florestas, área superior à da África do Sul, grande parte transformada em campos de cultivo.

É possível aproveitar a riqueza das florestas e, ao mesmo tempo, promover a conservação diante da necessidade de cultivar alimentos para uma população que chegará a 9 bilhões em 2050?

Alguns passos já estão sendo dados nessa direção. A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que já une cerca de 120 participantes (entre grandes empresas, academia e ONGs) é um deles. A iniciativa brasileira se propôs a juntar ambientalistas e entidades do agronegócio à mesa para promover maneiras de conservar e recuperar as matas mesmo na agricultura de larga escala.

Aliar conservação e produção

O biólogo Roberto Waack, um dos fundadores da Coalizão e presidente da empresa Amata (de manejo sustentável de florestas) explica que técnicas e tecnologias modernas tornam possível aliar conservação e produção. Para ele, poucos países têm condições de fazer isso melhor do que o Brasil.

“Os países que conseguirem conciliar produção de alimentos, energia e outros bens com a atividade florestal terão uma vantagem comparativa muito grande neste novo cenário que está se descortinando, de produção de matérias-primas de baixo carbono”, comentou Waack.

A convivência entre bosques e cultivos pode ser feita de duas formas. “Uma delas é aliar a renda da produção de grãos ou pecuária com a renda vinda de uma floresta bem gerenciada. Adiciona-se ao que acontece dentro da fazenda um novo portfólio de produtos (madeira de manejo sustentável, por exemplo)”, explicou.

Agrofloresta, solução que cresce

Existem também as agroflorestas, em que produtos como café, cacau e frutas são plantados à sombra das árvores. Isso permite obter produtos de melhor qualidade e com características mais desejáveis pelos consumidores, como sabor e concentração de princípios ativos.

Fundada em dezembro de 2014, a Coalizão passou o primeiro ano se organizando para as discussões da COP 21, em Paris, e em 2016 partirá para ações mais práticas.

As entidades participantes se dividem em grupos de trabalho sobre temas como o Código Florestal Brasileiro, economia das florestas tropicais, agricultura com baixa emissão de carbono e mecanismos de valoração de carbono, entre outros. Quando cabível, os próprios integrantes se encarregarão de implementar as atividades decididas pelos grupos.

“Os países que conseguirem conciliar produção de alimentos, energia e outros bens com a atividade florestal terão uma vantagem comparativa muito grande neste novo cenário que está se descortinando, de produção de matérias-primas de baixo carbono.”

Comunidades indígenas

Na semana passada, durante evento “Pense nas Florestas: Por que Investir em Florestas é a Grande Tendência”, do Banco Mundial, também se destacou o papel das florestas para a superação da pobreza, já que 1,3 bilhão de pessoas dependem diretamente de seus recursos. Muitas são de comunidades indígenas, consideradas essenciais para a preservação e a gestão sustentável das florestas.

A líder indígena e médica nicaraguense Myrna Kay Cunningham lembrou durante o evento que, em todo o mundo, a pressão feita por ONGs e nações indígenas nas últimas décadas possibilitou aumentar em cerca de 50% a área florestal reconhecida como propriedade das comunidades.

“A América Latina e o Caribe, onde os indígenas controlam 40% das florestas, é a região com maiores avanços”. Mas ainda há muitos obstáculos a superar. São por exemplo, o fato de os povos indígenas não receberem a participação nos benefícios resultantes da exploração de recursos nos territórios.

Acordo sobre o clima ajudam

Para Myrna Kay, acordos (como o da COP 21) para conter o aquecimento global e programas de redução de emissões provenientes de desmatamento e degradação florestal (mais conhecidos como REDD+) ajudam o mundo a reconhecer que a segurança jurídica do território indígena é importante para evitar conflitos, reduzir o desmatamento e enfrentar as crises alimentares e climáticas.

“Esses acordos precisam ser feitos de forma participativa com todos os atores, garantindo os direitos e fortalecendo processos descentralizados de gestão florestal”, enfatizou.

Trabalhar com os povos indígenas e as pequenas comunidades, por sinal, é mais uma das inovações trazidas pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura a um país em que são frequentes os conflitos entre esses grupos e o agronegócio.

“São uma parte muito importante do nosso sonho. A ideia de que é possível alguém fazer o que quiser na fazenda e ignorar o que está acontecendo no entorno não deveria mais existir”, disse Roberto Waack, também participante do evento em Washington.

 

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