06/08/2013 (20:20)

Neurociências Podem Causar Revolução Na Educação

Neurociências estão prestes a provocar revolução na educação. Podem ser importante auxílio na construção de métodos inovadores de ensino-aprendizagem.

 


Os estudos multidisciplinares sobre o funcionamento do cérebro e do sistema nervoso têm avançado rumo a uma compreensão científica dos processos de aprendizagem. Especialistas têm demonstrado que as estratégias pedagógicas podem ser mais eficazes quando traçadas de forma mais compatível com o funcionamento do cérebro humano, afinal, o órgão responsável pela aprendizagem. Entre outras coisas, os estudos já provaram que as emoções têm um lugar muito mais importante do que se imaginava na memória e na dinâmica da aprendizagem – o que tem grandes implicações para o trabalho em sala de aula.


Não se pode dizer que as neurociências sejam uma novidade. Há mais de 40 anos os pesquisadores exploram esse campo que se beneficia dos conhecimentos da medicina, da biologia, da física, da psicologia, da fisiologia, da química e até da engenharia para estudar o sistema nervoso. Na última década, o desenvolvimento de métodos de neuroimagem – como a ressonância magnética funcional e a tomografia computadorizada – permitiram que os cientistas estudassem os cérebros de pessoas vivas. Assim, tornou-se possível observar em tempo real que áreas específicas do cérebro são ativadas quando o indivíduo realiza uma determinada tarefa, quando lhe ocorrem diversos tipos de pensamentos ou quando sente certas emoções. Essas possibilidades abriram novos caminhos para a compreensão de diferentes processos cognitivos e, rapidamente, os cientistas começaram a desvendar as propriedades neurais que dão suporte à linguagem, ao pensamento aritmético, à realização de cálculos e, claro, aos processos de aprendizagem.


De acordo com a professora Neide Barbosa Saisi, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a aprendizagem está estreitamente ligada à memória e às emoções e envolve aspectos biológicos, sociais e psicológicos. A neurologista coordena na PUC-SP, desde o início de 2013, o curso de extensão Contribuições das Neurociências para o Fazer Docente. "Da perspectiva da neurociência, aprender é estabelecer sinapses e provocar modificações de longa duração no cérebro", diz Neide. Em outras palavras, a aprendizagem ocorre quando o indivíduo recebe estímulos que provocam transformações fisiológicas e estruturais em circuitos neurais, fixando-se com a experiência.


O indivíduo ao nascer, diz a especialista, já traz consigo toda a ‘circuitaria’ cerebral necessária para as sinapses – a comunicação entre as células nervosas, ou neurônios. "Isso faz parte da herança genética, mas ela só é colocada em ação pela experiência", afirma Neide. "Para a neurociência, aprender é trazer para a realidade essas sinapses que existem potencialmente", declara.


Quando a experiência envolve repetição e emoção positiva, o registro dela é mantido no cérebro por longo prazo, consolidando a aprendizagem na memória. Isso tem enormes consequências para o professor, observa Neide: o caminho para que o aluno aprenda e não se esqueça mais passa não apenas pela repetição, mas também pelo envolvimento emocional com a experiência do aprendizado. "Sem isso, não há aprendizado de fato. Por isso é tão importante que o educador compreenda, com base na neurociência, o que ocorre no cérebro quando se ensina e se aprende. Essas descobertas têm grandes implicações pedagógicas", afirma.


PONTES EM CONSTRUÇÃO


Os educadores parecem já ter percebido esta conexão na prática. O neurofisiologista Amauri Bartoszeck, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), publicou recentemente na revista European Journal of Education Research um estudo sobre a percepção de mais de 160 professores brasileiros de Ensino Fundamental sobre a ligação entre neurociência e educação. Cerca de 88% deles acreditam que a neurociência pode ajudá-los na tarefa de ensinar. Mais de 85% acreditam que mais estudos sobre a emoção, o sono e a memória poderiam melhorar o ensino nas escolas.


Por outro lado, Bartoszeck detectou também uma tendência a conceber o funcionamento do cérebro de forma nada científica. Quase 30% dos entrevistados acreditam, por exemplo, que "as pessoas só usam 10% da capacidade do cérebro" – um clássico mito relacionado à neurociência. O estudo também mostrou que a maioria dos professores acredita na "base imaterial da alma". "Dificilmente se pode trabalhar com neurociência e educação se as pessoas têm uma postura filosófica mística e não acreditam em dados experimentais", diz o pesquisador.


Apesar de todo o interesse despertado, Bartoszeck diz que ainda é preciso ter cautela em relação às promessas de aplicação da neurociência no aprimoramento da educação. "As pontes entre a neurociência e a prática educacional ainda estão por ser construídas", comenta. Para o professor, uma das principais contribuições da neurociência cognitiva para a construção des


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sas pontes consiste em indicar que é preciso aprofundar o estudo de ambientes educativos não tradicionais, que levem os alunos a construir significados a partir de aplicações no mundo real. "Ainda não há aplicações diretas. Há possibilidades promissoras, apenas", afirma o professor.


Até agora, segundo ele, a principal contribuição real da neurociência à educação foi mostrar claramente a necessidade de criar ambientes estimulantes. Para quem conhece o funcionamento do cérebro, atividades como desenhar e colorir podem ser aliadas importantes do aprendizado em sala de aula. "Colorir desenhos que descrevam visualmente o funcionamento dos órgãos e células do organismo humano é uma forma eficiente de aproveitar, no aprendizado, nossa enorme capacidade de memória visual", diz o pesquisador.


Apesar de todas as dificuldades, algumas das "pontes" entre neurociência e a educação já foram construídas em projetos específicos, como o Escrita Para Todos, que aplica, no aprimoramento da prática pedagógica da alfabetização, os conhecimentos recentes sobre como o cérebro aprende a ler e a escrever. Concebido e coordenado por Elvira Souza Lima, pesquisadora em desenvolvimento humano, o projeto é desenvolvido em Pedro Leopoldo (MG), em parceria com o Instituto Camargo Correa, a Secretaria Municipal de Educação e a InterCement.


A proposta, concebida nos Estados Unidos durante o pós-doutorado de Elvira na Universidade de Stanford, vem sendo aplicada desde meados da década de 1980 em escolas da rede pública em Porto Alegre, Curitiba, Blumenau, Rio de Janeiro e Juiz de Fora. "Aos poucos o projeto foi ganhando mais possibilidades, graças ao próprio avanço da neurociência", diz a professora. A pesquisadora, que tem formação em neurociências, psicologia, antropologia e música, realiza atividades com professores do 4º ao 6º ano das escolas locais. A partir do material produzido pelos alunos, ela discute, orienta e dá suporte teórico aos docentes.


LEITURA, ESCRITA E MATEMÁTICA


Segundo Elvira, a neurociência mostrou que, desde a vida intrauterina até os 2 anos de idade, diferentes partes do cérebro vão entrando em funcionamento de forma independente. A partir daí, já com as estruturas cerebrais completas – conforme determinado geneticamente –, a criança começa um processo de desenvolvimento interno da função simbólica. Esse período vai até os 6 ou 7 anos de idade e promove um importante processo de modificação da atenção. Antes disso, segundo a professora, não é possível alfabetizar de forma eficaz. "O ser humano não tem recursos genéticos para ler e escrever. Escrever é se apropriar de um sistema cultural que foi inventado há apenas 5 mil anos. Trata-se de uma atividade cultural que só é viável depois desse período de desenvolvimento da função simbólica. Assim, sabemos que o cérebro só está pronto para a alfabetização aos 7 anos" afirma Elvira.


Para a atividade de leitura, segundo a professora, o cérebro "recruta" 17 áreas diferentes. Mas para escrever é preciso mobilizar mais quatro áreas suplementares. "Descobriu-se que a escrita é muito mais complexa que a leitura. Quem lê, reconstrói o significado concebido pelo autor, mas para escrever é preciso ter na memória estruturas linguísticas que permitam compor o texto – é um esforço muito maior", diz. Segundo ela, a memória de trabalho é muito reduzida na espécie humana e, por isso, quando se pede que alguém repita o que disse, em geral a pessoa não é capaz de reproduzir a frase de forma idêntica. Isso demonstra como compor frases é mais difícil que


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apenas acompanhar sua leitura. "Um cérebro que escreve sabe ler, mas no contrário nem sempre acontece", diz.


Elvira também destaca a ligação entre a aprendizagem de línguas e da matemática. Segundo ela, a memória trabalha por padrões e, por isso, a escrita enquanto sistema tem um considerável componente matemático: ela é produzida da combinatória de letras e sílabas em conjunto. A conexão entre as duas áreas vai além: se o aluno não domina a estrutura da sintaxe, diz Elvira, ele apresentará também problemas em matemática. Segundo ela, muitas crianças brasileiras, por não conhecer essa estrutura, têm problemas sérios com a regência verbal e escrevem sem conectivos e preposições, o que causa impactos na forma de raciocinar logicamente. "O aprendizado em matemática é prejudicado, porque não é possível aprender os conceitos cien


O cérebro e a

sala de aula


No artigo Neurociência na educação, o neurofisiologista Amauri Bartoszeck, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), faz uma interpretação da análise apresenta pelo pesquisador norte-americano Stephen Rushton, da South California University, e enumera sete princípios da neurociência com potencial de aplicação no ambiente de sala de aula:

 
     
  1. Memória e emoções ficam interligadas quando ativadas pelo processo de aprendizagem. Como a aprendizagem é uma atividade social, alunos precisam de oportunidades para discutir tópicos. Um ambiente tranquilo em sala de aula encoraja o estudante a expor seus sentimentos e ideias.
  2.  
  3. O cérebro se modifica aos poucos fisiológica e estruturalmente como resultado da experiência. Aulas práticas, com envolvimento ativo dos participantes, permitem associações entre experiências prévias com as informações que estão sendo apresentadas.
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  5. O cérebro mostra períodos sensíveis para certos tipos de aprendizagem, que não se esgotam mesmo na idade adulta. É preciso ajustar expectativas e padrões de desempenho às características etárias específicas dos alunos, com o uso de unidades temáticas integradoras.
  6.  
  7. O cérebro mostra plasticidade neuronal, mas maior densidade sináptica não prevê maior capacidade generalizada de aprender. Em outras palavras, o cérebro está sempre se modificando e não há evidências de que tarefas complexas, que "exijam" muita atividade cerebral, sejam mais eficientes. O importante é o estudante sentir-se "dono" das atividades e temas que são relevantes para suas vidas. A possibilidade de escolher tarefas aumenta a responsabilidade do aluno no seu aprendizado.
  8.  
  9. Inúmeras áreas do córtex cerebral são simultaneamente ativadas no transcurso de uma nova experiência de aprendizagem. Levar para dentro da escola situações que reflitam o contexto da vida real possibilita que a informação nova possa se "ancorar" na vivência anterior.
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  11. O cérebro foi evolutivamente concebido para perceber e gerar padrões quando testa hipóteses. A resolução de casos e as simulações são boas estratégias de aprendizagem. É possível trabalhar com tentativas e aproximações, além da busca de evidências que comprovem ou refutem as hipóteses.
  12.  
  13. O cérebro responde, devido à herança primitiva, às gravuras, imagens e símbolos. Daí a importãncia de propiciar ocasiões para os alunos expressarem conhecimento através das artes visuais, música e dramatizações.
 

A íntegra do artigo do professor Amauri Bartoszeck (publicado pelo jornal Ideal Comunitário)  está disponível em www.geocities.ws/flaviookb/neuroedu.pdf



 

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