31/07/2013 (20:37)

Yves Hublet, Que Bateu de Bengala Em Político, Sugere Novo Brasil

Impedido de se mudar para a Bélgica porque conduzia velhas garruchas desmontadas, como colecionador, Yves Hublet está morto. Mas fica o gesto.

 

Réquiem a um homem corajoso: Yves Hublet.

O 26 de julho de 2013 lembra o ano três da morte do escritor paranaense Yves Hublet, autor de obras infanto-juvenís de fábulas ecológicas e fundador da Associação Cultural Paranaense de Autores Independentes.  Em 2013, ele teria completado  - em abril - 75 anos. Suas obras, talvez, não tenham merecido muito espaço na mídia tanto quanto o inusitado gesto que ele praticou no interior de um dos corredores da Câmara Federal no dia 29 de novembro de 2005.

Foi um dia histórico: as duas bengaladas desferidas na cabeça e nas costas do então deputado federal José Dirceu, o catraieiro da corrupção, um dia antes de ser cassado e de ter seus direitos políticos suspensos . Mau caráter e corrupto compuseram o destempero verbal  de Yves Hublet como acompanhamento das duas bengaladas. Sem creme de chantily, por sinal.

José Dirceu culpou a “democracia” pelo ato impulsivo do escritor, que  - por sinal - lhe custou muitas amarguras e aborrecimentos.  Não teve mais tranqüilidade, nem horas de paz, revelou seu editor Airo Zamoner. Portador de pertinaz doença, foi obrigado a se mudar para a Bélgica, pois tinha dupla cidadania, fixando-se em Charleroi, onde tinha pequena propriedade. Retornou ao Brasil para tratar de assuntos particulares em Curitiba, Rio de Janeiro e em Brasilia, onde, alguns dias depois de lá chegar, ao embarcar para a Bélgica, acabou preso, dizem, por porte ilegal de armas: duas garruchas desmontadas, herança da família.

Como ele mesmo queria, acabou ficando por aqui, no Brasil, de onde não pretendia sair. Ficou. Porém, não  da maneira de como gostaria.

Não pretendemos entrar na questão das circunstâncias da morte de Yves, mas no fato de que as patéticas bengaladas dada no escudeiro do mensalão podem significar um ato de patriotismo. E que qualquer brasileiro gostaria de bisar. Ou até mesmo, lembrando a expressão do Diogo Mainardi, poderia significar o ato de se puxar a descarga do banheiro e mandar para as profundezas as imundícies e os dejetos da mediocridade política ainda insepultos.

Mas tal descarga não funcionou. Foi apenas um espasmo. As mazelas continuam. Continuamos, nós, entregues a um mísero ceticismo. E por causa da tal democracia, que o ficha suja pretende e defende, o vemos sorridente, tranqüilo e impune como se fosse um deus, venerado por gente do mesmo calibre, companheiros de trampolinagens que infelicitam o nosso país, todos os quais se colocam acima da Lei.

E infelicitam a verdadeira democracia. Aquela que nós queremos. Aquela que simbolizou a bengalada do Yves Hublet em cima de José Dirceu. Empobrecida de corruptos e corruptores, empobrecida da hipocrisia e mediocridades políticas, fortalecida por leis executadas com retidão, da honradez dos postos públicos, dotada de instrumentos para enfrentar as engenhosas maquinações de políticos férteis de meios e manhas plenos de malandragens, e onde a impunidade deixe de ser aquela bênção tão a gosto da politicalha.

A bengalada  que Yves Hublet impôs ao José Dirceu, não foi, como querem alguns,  um gesto achamboado, muito menos infrene ou provocativo, mas pleno de coragem e patriotismo. Yves não deixou apenas bem elaboradas obras infanto-juvenís, que enriquecem bibliotecas de muitas escolas. Deixou-nos um símbolo: a sua bengala que seu amigo das últimas horas Rômulo Marinho quer torná-la o símbolo da luta contra a Era da Mediocridade.

 

Adendo: há muitas versões a respeito das circunstâncias em que ocorreu a morte de Yves Hublet. Tivemos o cuidado de buscar várias fontes, uma das quais a de Rômulo Marinho, do Sindicato dos Escritores de Brasilia que acompanhou o escritor em seus últimos dias, e de sua amiga Tatiana Ribeiro.  Yves estava acometido de gravíssima doença (câncer intestinal já em processo de metástese). Faleceu no Hospital Regional da Asa Norte, de B rasilia, logo após as seis horas do dia 26 de julho. Seu corpo não foi cremado, como se noticiou. Está sepultado no Cemitério Campo da Esperança, Asa Sul, de Brasilia, setor , lote 0208, quadra 02.032.

 

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