09/04/2012 (18:40)

Floresta Amazônica Oferece Descobertas Úteis Para o Desenvolvimento

Controle da ferrugem do café no Brasil, encontrada na África, Índia, Ásia e Austrália; vacina contra vírus "tristeza dos citros" que destruiu pomares.

 

Ferrugem do café é uma doença devastadora, historicamente que foi controlada no Brasil, com a substituição dos cafeeiros, pelos idos de 1970. Outro exemplo apresentado pelo pesquisador foi a ‘virose em lagartas’, o ‘Baculovírus’, que recebeu o maior controle biológico do mundo, com a substituição de inseticidas químicos e que, além de proporcionar economia aos produtores, protegeu o meio ambiente.

Pesquisas permitiram o desenvolvimento da embalagem para a soja no Brasil e a levedura da cana-de-açúcar, (Saccharomyces cerevisiae). Levedura foi encontrada a partir da experiência iniciada em 1975, com o Proálcool, combustível obtido pela fermentação do suco da cana-de-açúcar. Posteriormente, uma parceria entre pesquisadores brasileiros e norte-americanos levou ao sequenciamento completo do código genético de uma linhagem de levedura – a CAT-1.

São alguns exemplos dados pelo pesquisador Spartaco Astolfi Filho (FOTO), diretor do Centro de Apoio Multidisciplinar (CAM), da Universidade Federal do Amazonas/UFAM,  sobre a contribuição da grande floresta para o desenvolvimento da Biotecnologia. Falou para estudantes, pesquuisadores, populares e professores, no Museu da Amazônia em Manaus.

Pesquisas sobre elementos da flora já exibem avanços  nas áreas da biologia molecular e engenharia genética. Estudos “têm respondido com rapidez aos problemas gerados na natureza e até procurado se antecipar às situações, antes que elas venham a acontecer”.

A experiência com a Bioquímica Brasil/BIOBRAS, que se tornou a maior fabricante de insulina sintética do mundo e principal empresa de biotecnologia de saúde do Brasil, também foi lembrada pelo pesquisador: “A BIOBRAS demorou 10 anos para chegar ao mercado e quando conseguiu, foi vendida para a dinamarquesa Novo Nordisk, atrasando em oito anos o avanço da tecnologia intracelular no Brasil”, declarou.

Investimentos em biotecnologia

e Conservação da microbiota

O desenvolvimento de estudos multi e interdisciplinares têm sido fundamentais para o investimento em biotecnologias, assegurou o pesquisador. “Investimos o máximo possível, junto ao INPA e UEA, criando cursos em todos os níveis; desde o técnico, graduação, mestrado e doutorado. Temos muita coisa a descobrir na Amazônia, com herbicidas, corantes, novas espécies para serem utilizadas como controle biológico. Precisamos chegar ao princípio ativo e levar empresas a se interessarem pela pesquisa”.

Como exemplo desses estudos, o pesquisador citou a preparação de cimento endodôntico, o endocop, sob a responsabilidade da doutora em Biotecnologia Aplicada à Saúde, Angela Delfina Garrido. Considerado pelo diretor do CAM como “o melhor cimento bucal do mercado, feito à base de óleo de copaíba”, o produto foi desenvolvido a partir de uma solicitação do Ministério da Ciência e Tecnologia/MCT. A pesquisa ganhou menção honrosa na 23.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica, realizada em 2006.

Segundo Astolfi, “um aspecto interessante no resultado das pesquisas é que contribuem para a geração de empregos”. Mas para que isso aconteça, é necessário ter uma estrutura que funcione. “O CBA, hoje faz falta”, desabafou o pesquisador que foi um dos criadores do Centro de Biotecnologia da Amazônia. “Outras iniciativas semelhantes têm obtido êxito, como o laboratório de biotecnologia molecular/BIOTECH Amazônia, que hoje funciona a contento, com a participação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia/INPA, Universidade Federal do Amazonas/UFAM e Universidade Federal do Pará/UFPA”.

Ciência confirma conhecimento tradicional

O pesquisador destacou a descoberta do DNA do guaraná (Paullinia cupana) como um trabalho de pesquisa bem-sucedido. “Foi uma das descrições de cariótipos mais bem realizadas até hoje”. Desenvolvido pela Rede da Amazônia Legal de Pesquisa Genômica (REALGENE) – que reúne cientistas de mais de uma dezena de universidades e institutos de pesquisa da Amazônia e outras partes do País, o projeto contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas/FAPEAM.

O guaraná é uma planta trepadeira, cultivada há séculos na Amazônia central pelas tribos Maué e Andirá e hoje pelo homem contemporâneo também de outras partes do País, como a Bahia. O que chamou a atenção durante a pesquisa foi a existência de 210 cromossomos na biologia molecular da variedade sorbilis, da Paullinia cupana, enquanto noutras espécies do mesmo gênero, a quantidade é de apenas 24 cromossomos.

Para o pesquisador, isso se deve à domesticação do guaraná pelos indígenas. “Os índios detectaram essas características com os conhecimentos adquiridos durante séculos e a ciência só veio confirmar”, explicou. “Gastamos um ano para levantar as 20 mil sequências que se expressam no fruto, ouvindo os indígenas e comparando os extratos de guaraná”.

 

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