19/10/2018 (23:09)

Estresse do comércio mundial; especialistas apontam soluções

“A economia mundial está novamente sob estresse. As pressões imediatas estão aumentando em torno da escalada de tarifas e fluxos financeiros voláteis, mas por trás dessas ameaças à estabilidade global, desde 2008 segue fracasso maior em lidar com desigualdades e desequilíbrios do mundo hiperglobalizado”. Foi o que disse Mukhisa Kituyi.

 

É o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Assina o relatório Comércio e Desenvolvimento 2018: Poder, Plataformas e Ilusão do Livre Comércio onde afirma que a economia mundial permanece em terreno instável 10 anos depois da crise financeira de 2008. Guerras comerciais aparecem como sintoma de mal-estar mais profundo.

Observa que a economia global teve uma retomada desde o início de 2017,

mas o crescimento permanece espasmódico, e muitos países estão

operando abaixo do potencial. Este ano é improvável haver mudança

nessa engrenagem. Documento de 2018 examina como o poder econômico

está sendo concentrado em número menor de grandes empresas internacionais. 

Mostra o impacto que isso está tendo na capacidade dos países em

desenvolvimento de se beneficiarem da participação no sistema de

comércio internacional e ganhar com novas tecnologias digitais.

Relatório afirma que muitos países avançados, desde 2008, abandonaram as fontes internas de crescimento para as externas, mais notavelmente com a reviravolta da zona do Euro de um déficit para para região de superávit. Mas isso só pode funcionar com a demanda interna de outros países — e, entre os países que dependem da demanda doméstica, muitos estão contando com a combinação de dívida mais alta e bolhas de ativos, em vez de aumentar os salários. Em ambos os casos, o crescimento é dificultado pela ameaça sempre presente de instabilidade financeira.

As maiores economias emergentes estão melhor em 2018 e, os exportadores de commodities podem esperar êxitos, enquanto os preços permanecem firmes. Com exceção da Rússia, o crescimento nos outros quatro países do BRICS — Brasil, Índia, China e África do Sul — depende muito da demanda interna.

Porém esse não é o caso de muitas outras economias emergentes. Com os riscos negativos aumentando e as linhas de falhas financeiras se ampliando em vários países, há previsões difíceis. O estoque atual de dívida é de US$ 250 trilhões, 50% mais do que no momento da crise e três vezes o tamanho da economia global. A dívida privada, particularmente a corporativa, persiste por trás desse surto de endividamento, mas sem estimular o investimento das empresas, desconexão que causa problemas à frente.

Mesmo que as economias avançadas não tenham feito o suficiente para reequilibrar a economia global, há preocupações de que as políticas monetárias “normalizadoras” possam causar novas ondas de choque por meio dos mercados de capitais e de moedas, com a espiral perigosa que torna ambientes mais vulneráveis.

“O crescente endividamento observado globalmente está intimamente ligado ao aumento da desigualdade”. É o que diz Richard Kozul-Wright, principal autor do relatório. “Os dois têm sido conectados pelo crescente peso e influência dos mercados financeiros — uma característica definidora da hiperglobalização”.

O comércio global continua ser dominado pelas grandes empresas

diante da organização e controle das cadeias de valor globais.

Em média, 1% das empresas exportadoras respondem

por mais da metade das exportações de cada país.

A disseminação dessas cadeias contribuiu para um rápido crescimento do comércio de meados dos anos 1990 até a crise financeira, com os países em desenvolvimento apresentando o crescimento mais rápido, inclusive negociando mais uns com os outros.

Mas o relatório mostra que os países tiveram que negociar mais intensamente para gerar o mesmo crescimento da produção na comparação com o passado, e que muito desse comércio foi desigual, com ganhos distorcidos em favor de empresas líderes através de uma mistura de maior concentração de mercado e controle de ativos intangíveis.

O relatório documenta um declínio geral — com a China em exceção — na participação do valor agregado das atividades industriais nessas cadeias e um aumento da participação das atividades de pré e pós-produção; as rendas capturadas nos extremos da cadeia, tiveram um efeito pronunciado na distribuição em todos os países. “As empresas superstar são um fenômeno global, e as estratégias de busca de renda se estendem por fronteiras”, diz Richard Kozul-Wright.

Quer signifiquem ou não uma guerra comercial, as recentes rodadas de aumento de tarifas interromperão um sistema de comércio desenhado cada vez mais em torno das cadeias de valor, embora o crescimento do comércio em 2018 provavelmente seja semelhante ao de 2017.

No entanto, as consequências de qualquer grave escalada, poderiam, através de maior incerteza e redução do investimento, trazer consequências mais prejudiciais a médio prazo, diz o relatório. Estas podem ser particularmente graves para países que já enfrentam dificuldades financeiras.

Além disso, como as tarifas funcionam alterando a lucratividade das empresas nos setores comercializáveis, têm conseqüências distributivas e afetam a demanda de formas que exigem uma avaliação cuidadosa.

Guerras de tarifas, degradação

O relatório inclui projeções que destacam os possíveis riscos, e conclui

que “após décadas experimentando os limites do ‘livre comércio’, seria

trágico abraçar o extremo oposto — uma guerra de tarifas comerciais — em

vez de considerar o que os governos poderiam fazer, através da coordenação

de políticas globais, para evitar a contínua deterioração da distribuição

de renda e do emprego que estão na raiz das crises econômicas mais recentes”.

O documento diz que a hiperglobalização não resultou em um mundo de “ganha-ganha”. Mas nem o recuo ao nacionalismo nostálgico nem a duplicação do apoio ao livre comércio fornecem a resposta correta, segundo o relatório. Além disso, o livre comércio se mostrou uma folha ideológica que reduziu o espaço político para os países em desenvolvimento e cortou as proteções para os trabalhadores e as pequenas empresas, ao mesmo tempo em que protegeu as tendências de busca de renda das grandes empresas.

No mundo real, as guerras comerciais são um sintoma de um sistema econômico e arquitetura multilateral degradados, diz o relatório, enquanto a doença é um círculo vicioso de captura política corporativa e crescente desigualdade onde o dinheiro é usado para ganhar poder político e poder político é usado fazer dinheiro.

Sistema comercial gerenciado

“Velhas e novas pressões estão pesando sobre o multilateralismo”, disse Mukhisa Kituyi. “Em nosso mundo interdependente, soluções voltadas para dentro não oferecem um caminho a seguir; o desafio é encontrar maneiras de fazer o multilateralismo funcionar”.

Para evitar repetir os erros da década de 1930, a UNCTAD sugere o retorno à

Carta de Havana, que foi a tentativa inicial de estabelecer um sistema comercial

multilateral gerenciado. Fazer isso significa assumir muitos novos desafios —

desconhecidos pelos signatários da Carta em 1948 — que exigem cooperação internacional efetiva.

No mínimo, priorizaria três ações: vincular as discussões sobre comércio a um compromisso de pleno emprego e salários crescentes, regular o comportamento corporativo predatório e garantir espaço político suficiente para assegurar que os países possam gerenciar sua integração de acordo com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

 

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NKEdpz