09/10/2018 (19:28)

Indústria interfere na venda de tabaco e desafia governos

A indústria do cigarro tem interferido de forma “cada vez mais perversa” nos esforços de governos para combater a venda e o consumo de tabaco. A avaliação é de um novo relatório da Convenção-Quadro da Organização Mundial da Saúde (OMS). Organismo alerta que, por ano, mais de 7 milhões de pessoas morrem por causa do uso da substância.

 

A brasileira Vera Luiza da Costa e Silva, que chefia o Secretariado da Convenção, afirma que empresas “agora estão usando as ferramentas e a linguagem dos ativistas de controle do tabaco para alavancar as agendas perigosas. São os mesmos interesses de negócios do tabaco, com as mesmas intenções, ou seja, o lucro, mas eles estão usando um disfarce novo e enganoso, então precisamos estar duas vezes mais vigilantes”.

Em setembro de 2017, a Convenção-Quadro denunciou a criação da Fundação para um Mundo Livre do Fumo, financiada única e exclusivamente por uma das maiores companhias do setor tabagista. A instituição recebeu recursos de quase U*S$ 1 bilhão para realizar e financiar estudos sobre agricultura, trabalho e produtos de nicotina.

“É o exemplo perfeito de uma filantropia aparentemente inofensiva, que reivindica completa independência, (mas) promovendo pesquisa financiada pela indústria do tabaco e tentando influenciar o debate público e o conhecimento comum sobre os efeitos do tabaco na saúde e no meio ambiente”, acrescentou a especialista da OMS.

A Convenção também ressalta que o setor privado tem criado novos produtos, vendidos como "livre de fumaça" ou "heat-no-burn" — cigarros que queimam o tabaco a uma temperatura menor que cigarros convencionais. Segundo o organismo da OMS, essa variedade gera confusão entre os consumidores.

“Com a mão direita, (as empresas) vêm com esses produtos novos, e ainda prejudiciais, e com a mão esquerda, encontram meios de apoiar estudos que os apresentam como seguros para a saúde das pessoas, mesmo que não haja, de fato, evidência científica para embasar tais alegações”, avalia da Costa e Silva.

De acordo com a pesquisa da Convenção-Quadro, táticas similares são empregadas em outras frentes, como o debate sobre a degradação ambiental associada ao cigarro ou sobre o uso de trabalho infantil na indústria. O resultado é a fragilização dos diálogos e da implementação de medidas de controle do fumo.

“Conforme os gigantes do tabaco vão ficando mais criativos, não podemos esquecer: a indústria do tabaco é o problema aqui, então como poderia ser parte da solução? Eles têm uma agenda própria”, disse a pesquisadora.

O artigo 5.3 da Convenção-Quadro exige que todas as partes do acordo garantam que suas políticas públicas de saúde sejam protegidas “de interesses comerciais e outros interesses inerentes à indústria do tabaco”.

Na Polônia, o Ministério da Saúde alertou todas as escolas médicas e solicitou que nenhuma instituição peça ou aceite financiamento da Fundação para um Mundo Livre do Fumo. O comunicado da pasta informava que não seriam reconhecidas quaisquer pesquisas realizadas em cooperação ou com o patrocínio da fundação.

No Vietnã, medida semelhante foi adotada pelo Ministério da Saúde, que comunicou todos os ministros de governo sobre a situação. Nos Estados Unidos, 17 das maiores escolas de saúde pública anunciaram que não aceitarão recursos da fundação nem buscarão parcerias com a entidade.

“Há decisões encorajadoras sendo tomadas em todo o mundo, mas lamentavelmente isso está caminhando a um ritmo alarmantemente devagar e não podemos nos dar o luxo de permanecer (apenas) com nossas pequenas vitórias. A indústria está sempre nos alcançando e encontrando novos meios de combater nossos esforços.”

 

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