21/09/2018 (16:45)

Vinícola Ravanello, de Gramado, primeiro selo de produção integrada

Em Gramado (Rio Grande do Sul), a Vinícola Ravanello será a primeira do Brasil a receber o selo de produção integrada. Antes de chegar à conquista, passou por exigências que vão desde redução de químicos na lavoura até a preocupação com a saúde do trabalhador e capacitação, entre vários outros itens que também dão segurança ao consumidor.

 

Vinícola Ravanello, no município de Gramado (RS), é a primeira empresa brasileira a

apresentar o selo da produção integrada nos rótulos, certificação que atesta o

emprego de boas práticas agrícolas e de produção. A chancela assegura que o

produto cumpriu uma série de quesitos, que vão desde a redução do uso de

químicos na lavoura até a preocupação com a saúde do trabalhador e a sua c

apacitação, entre vários outros itens que também dão segurança ao consumidor.

 

Após acompanhamento técnico e auditorias, os vinhos Chardonnay e um assemblage de Merlot e Cabernet Sauvignon, elaborados na Safra 2017/18, receberão o certificado e a autorização do Instituto de Avaliação da Qualidade de Produtos da Cadeia Agro Alimentar (Certifica) para a impressão de selos da produção integrada para as garrafas. O Programa da Produção Integrada tem a chancela do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro).

A conquista do vinho certificado é o resultado de nove anos de pesquisas científicas, período no qual foi avaliado e validado todo o sistema de manejo da uva e o processo de elaboração da bebida. Segundo o pesquisador da Embrapa Uva e Vinho (RS) Samar Velho da Silveira, que lidera o projeto de produção integrada, à medida que as normas propostas pela equipe técnica iam sendo avaliadas e validadas, as vinícolas parceiras já incorporavam as práticas em suas rotinas. “A parceria com produtores nesse processo foi fundamental para conseguirmos ter um sistema que funciona na prática. É um novo momento para os vinhos brasileiros”, comemora o cientista.

Selo é diferencial no mercado

Silveira explica que a produção integrada é um sistema de certificação que tem base na adoção de boas práticas, tanto agrícolas quanto de fabricação. É alcançada por meio do uso do manejo integrado de pragas e doenças para se chegar à redução de agroquímicos, visando à ausência de resíduos químicos, físicos e biológicos nos produtos. Idéia é que se  existirem, que estejam dentro de padrões de segurança estabelecidos na legislação brasileira, oferecendo assim alimentos seguros e de alta qualidade aos consumidores. “A Produção Integrada é a consolidação do melhor conhecimento agronômico disponível, que permite uma produção ambientalmente sustentável. Ao cumprir a normativa, os agricultores poderão certificar seus vinhos e usar o selo Brasil Certificado, diferenciando o produto no mercado”.

O sistema também leva em conta aspectos sociais da produção, como a saúde do trabalhador rural, isenção do uso de mão de obra infantil e o constante treinamento das pessoas. “O resultado final é uma garrafa de vinho com um selo que garante acesso a mercados exigentes e que possibilita a rastreabilidade de todo o sistema”, pontua Silveira. Todo o histórico da produção na propriedade fica registrado nos “Cadernos de Campo” e nos “Cadernos do estabelecimento Vinícola”, que é um dos materiais auditados pela certificadora. A vinícola pode adicionar um código de barras ou um código QR ao rótulo para que essas informações possam ser visualizadas pelo consumidor por meio de seu aparelho celular ou tablet.

Certificação, muitas exigências

Para um vinho receber o selo da produção integrada, um longo caminho deve ser percorrido. O produtor deve contar com assistência técnica capacitada e habilitada em Produção Integrada de Uva para Processamento (PIUP) para conduzir as práticas de manejo no parreiral, atendendo aos princípios e às Normas Técnicas. Entre elas, conduzir sua área dentro das normas durante um ano prévio à certificação e ser auditado por uma certificadora independente, nesse caso, o Instituto de Avaliação da Qualidade de Produtos da Cadeia Agro Alimentar (Certifica).

Nede Lande Vaz da Silva, diretor do instituto, comenta que todo o processo de certificação é acompanhado a partir de uma lista de checagem detalhada, que envolve a produção da uva ao longo da safra no campo, começando já na época da poda, passando pela colheita, vinificação e dos testes em laboratórios terceirizados para identificar a possível existência de resíduos no vinho. “É um processo bastante demorado e minucioso. Percorremos todo o caminho da produção que se encerra com a análise dos vinhos, dos quais somos responsáveis pela coleta das amostras, que são lacradas e enviadas ao laboratório”, explica.

O laudo técnico do laboratório vai para a certificadora, que confere se todas as moléculas que integram a grade de agroquímicos da cultura estão dentro dos limites estabelecidos pelo Mapa e pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Se tudo estiver de acordo, a empresa emite o certificado e autoriza a emissão do selo, que contém a marca do Programa Brasil Certificado, do Mapa e da certificadora. A emissão dos selos é controlada pela certificadora, que autoriza a gráfica a imprimir somente a quantidade de selos necessária para as garrafas que receberão o vinho elaborado dentro do sistema de produção integrada.

A Ravanello passou pela fase da auditoria em campo em outubro de 2017, e da vinícola em janeiro de 2018. Em abril deste ano, finalizando o processo, os vinhos foram coletados e as análises de resíduos foram realizadas em laboratório. “Todo o processo segue à risca um grande check list, que garante um produto final de qualidade. Atualmente, o consumidor brasileiro ainda não reconhece a certificação de produção integrada como um diferencial, mas é uma questão de conscientização e de tempo”, avalia Silveira. Ele comenta que, além da uva para elaboração de sucos e vinhos, a Empresa também tem sido responsável pela certificação da Produção Integrada de maçãs e morango.

 

 A trajetória da Ravanello

Segundo o proprietário da Vinícola Ravanello, Normélio Ravanello, a conquista da Produção Integrada foi planejada a longo prazo, e nasceu da preocupação em produzir de forma sustentável. O produtor conta que empregou um profissional de Biologia a fim de repassar as diretrizes para a não contaminação e preservação do meio ambiente.

Ravanello considera a certificação uma comemoração antecipada dos dez anos da vinícola, que acontecerá em novembro. “O selo simboliza o respeito da nossa empresa ao meio ambiente e à saúde das pessoas, por meio da cultura do vinho”, sintetiza.

Ele comenta que a escolha das uvas melhor adaptadas ao clima de Gramado, a aquisição dos equipamentos de última geração e a assessoria de profissionais competentes foram fundamentais para o empreendimento. “Sempre quis fazer o melhor dentro [do setor] de uva e vinho, essa é a razão do meu projeto”, revela o neto de imigrantes italianos que, na adolescência, ajudava o pai na elaboração de vinho. Por isso, ele considera a vinícola um retorno às suas origens, além de seu projeto de aposentadoria. Durante sete anos, Ravanello foi presidente para a América Latina da empresa de equipamentos agrícolas Massey Fergunson.

A busca pela qualidade levou a Ravanello a ser uma das primeiras vinícolas a apoiar a Embrapa na validação das Normas da Produção Integrada de Uva para Processamento e agora tornou-se a pioneira a ter seus vinhos certificados. A relação com a Empresa de pesquisa, segundo relata o empresário, é mais antiga, pois antes mesmo de formalizar a vinícola ele já contava com o apoio da pesquisa.

“Nossos primeiros vinhos foram elaborados na Embrapa, por meio de um contrato de cooperação. Com ajuda dos especialistas, identifiquei a melhor localização para as parreiras, entre a Serra do Mar e do Continente, e o que havia de mais moderno no mundo em equipamentos e práticas de produção”, conta Ravanello.

Ele cita, por exemplo, a prensa pneumática horizontal com o sistema Inertz, o primeiro equipamento do gênero que veio da Itália para o Brasil e no qual foi elaborado o Chardonnay certificado. O planejamento da Vinícola foi feito a várias mãos, com o apoio de profissionais, entre os quais uma bióloga e um arquiteto que se preocuparam com diferentes aspectos, como o tratamento de esgoto, por exemplo. Eles desenvolveram um projeto amplo que previu, inclusive, o tratamento do esgoto produzido, que conta com o aval da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), deixando a propriedade autossuficiente ao não depender do poder público para tratar seus resíduos.

Erradicação de herbicidas

A implantação da produção integrada na Vinícola conta com o acompanhamento do enólogo Ataíde Israel Cordeiro e do técnico agrícola Rudilei Carmiel, responsáveis técnicos treinados pela Embrapa que fazem o acompanhamento das áreas de produção integrada. Um dos principais resultados da implantação do sistema foi a redução de 30% nos produtos aplicados no parreiral, apenas utilizando estratégias de monitoramento dos insetos e a erradicação do uso de herbicidas.

 

 

Produção integrada

Por meio do Plano Agro+, em novembro de 2016 o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) publicou a instrução normativa contemplando as Normas Técnicas Específicas (NTE) para 13 culturas agrícolas, entre as quais a da uva para processamento.  Com essa publicação, baseada na documentação elaborada pela Embrapa Uva e Vinho, os agricultores poderão aderir, de modo voluntário, às respectivas Normas Técnicas, passando a cultivar de acordo com a Produção Integrada Agropecuária (PI Brasil), voltada à sustentabilidade, à preservação do meio ambiente, da saúde do agricultor e dos consumidores.

 

O conceito de Produção Integrada foi criado na Europa na década de 1970. Naquela época, manifestaram-se nos círculos científicos preocupações quanto ao alcance restrito do manejo integrado de pragas, como estratégia utilizada para racionalização e redução de uso de agroquímicos e de sustentabilidade da atividade frutícola. Em 1989, estabeleceu-se um regulamento que foi aceito e reconhecido pela Organização Internacional de Luta Biológica de Pragas (IOBC). No Brasil, foi criado um modelo de pesquisa e desenvolvimento pela Embrapa Uva e Vinho, inicialmente validado para a cultura da maçã, que foi o primeiro produto brasileiro a receber a certificação de Produção Integrada.

A Produção Integrada de Uva para Processamento foi desenvolvida pela Embrapa

em parceria com instituições de pesquisa, de extensão e do setor produtivo,

como a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Governo do Rio

Grande do Sul (Emater/Ascar-RS), Tecnovin do Brasil, Cooperativa Nova Aliança,

e as vinícolas Almadén, Luiz Argenta, Ravanello, Perini e Santa Maria.

 

No Brasil, a viticultura ocupa uma área aproximada de 82,5 mil hectares, produzindo anualmente em torno de 1,34 milhão de toneladas de uvas. A cultura da videira tem importante relevância socioeconômica para o País, sendo o Rio Grande do Sul o maior polo vitivinícola do Brasil, responsável por cerca de 90% da produção nacional de vinhos e sucos.

Entre 2010 e 2015, foram elaboradas e harmonizadas as normas PIUP, os Manuais Técnicos e os Documentos de Acompanhamento (Caderno de Campo, Caderno do Estabelecimento Vinícola e a Grade de Agroquímicos), que dão suporte à adoção do sistema de produção integrada. As normas PIUP foram então repassadas ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento para publicação em Diário Oficial, de maneira que os produtores e as vinícolas interessadas possam adotar o sistema de forma oficial.

Segundo Silveira, a expectativa é que outras vinícolas tenham sua produção certificada e que os viticultores de outras regiões sigam a experiência e mostrem o caminho para outras empresas.

 

 

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