09/04/2018 (14:45)

Presidente do Banco Central fala sobre o Brasil, em Harvard e MIT

Papel da inflação baixa no desenvolvimento do Brasil, foi um dos temas que tratou Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, para comunidades da Universidade de Harvard e Instituto de Tecnologia de Massachussetts, em Boston, nos EUA. Qual o papel da inflação baixa no desenvolvimento de um país? Esta pergunta dominou as discussões. Veja o que disse

 

1. Como foi gerir o BCB numa situação econômica delicada, instabilidade política grave e ainda assim entregar resultados tão positivos?

  • Foi fundamental o redirecionamento da política econômica. Na condução da política monetária, perseguimos a meta estabelecida para inflação com firmeza e perseverança priorizando a ancoragem das expectativas de inflação antes de flexibilizar a política. Dessa forma, foi possível mudarmos do binômio inflação e recessão para desinflação e recuperação e estamos entregando resultados positivos a despeito das incertezas.
  • Além disso, os buffers que temos (como as reservas internacionais, que correspondem a 20% do PIB, e um menor estoque de swaps cambiais) têm se mostrado capazes de mitigar os impactos de instabilidades, tanto internas quanto externas.

 

2. Quais são as lições para os gestores de política monetária daqui para frente?

  • Acredito que o período que vivemos demonstrou a importância de termos uma política econômica consistente e de se conduzir a política monetária com firmeza e perseverança primando pela credibilidade do Banco Central. Nesse contexto, a ancoragem das expectativas de inflação tem um papel fundamental.
  • Foco da discussão

 

3. Qual o papel de uma inflação baixa para o desenvolvimento de um país?

  • Há um papel socioeconômico fundamental desempenhado pela inflação baixa e estável. Quem mais sofre com altas taxas de inflação são as pessoas na base da pirâmide de distribuição de renda. Essas pessoas consomem toda a sua renda e uma inflação mais elevada reduz sua capacidade de consumo, sem que elas possam fazer nada para preservar seu poder aquisitivo. Isso compromete o nível de bem-estar mínimo de muitos. As pessoas com maior renda têm condições de evitar a erosão da sua capacidade de adquirir bens e serviços, bem como de proteger seu patrimônio. Inflação baixa, portanto, é uma condição para que se possa garantir um nível de bem-estar mínimo às pessoas mais pobres e é, também, fator de alívio para a concentração de renda, causa de distorções sociais e econômicas indesejadas.
  • Além disso, manter a trajetória da inflação baixa e estável reduz o risco associado à tomada de decisão de médio e longo prazos, como investimentos. Essa é uma condição necessária para se promover o crescimento sustável pois a incerteza associada a ambientes macroeconômicos de inflação alta e instável leva à queda do investimento e à alocação ineficiente de recursos produtivos.
  • Inflação baixa permite juros menores e uma recuperação consistente da economia.

 

4. Qual o nível de inflação ideal para um país como o Brasil? Quais os maiores desafios para o Brasil chegar lá? Quanto tempo até chegar lá?

  • O consenso é que os bancos centrais devem perseguir uma taxa de inflação baixa e estável. Há discussões quanto ao nível ótimo de inflação, não só em economias emergentes mas também para países mais desenvolvidos.
  • Países emergentes, como o Brasil, tendem a ter uma meta acima da adotada nas economias desenvolvidas. Os países emergentes mais estáveis têm a meta de inflação próxima a 3%. No longo prazo, quanto mais próximos ficarmos do restante do mundo, melhor para nós.
  • Considero que o maior desafio na condução de uma política monetária é assegurar um ambiente de inflação baixa por um longo período de tempo. Para isso, é preciso é preciso persistir nas reformas e ajustes da economia brasileira.

 

5. Qual o papel do Banco Central pensando na compatibilização da estabilização dos preços e crescimento do país? Quais as tensões políticas geradas? Como é ser o Presidente do Banco Central nessa situação?

  • No Brasil, conduzimos a política monetária sob o regime de metas para a inflação usando como referência uma meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Dessa forma o Banco Central combate choques que afastam a inflação da meta, fazendo-a convergir numa velocidade que considera o custo sobre a atividade econômica.
  • É preciso ter em mente que a maior contribuição do BC é assegurar a sustentabilidade do crescimento da economia em um ambiente macroeconômico de inflação baixa e estável.
  • Além do regime de metas para a inflação, o Banco Central é responsável pela estabilidade do sistema financeiro, o que também contribui para o crescimento sustentável da economia.
  • Quanto a questões políticas, o Banco Central atua de forma a se manter neutro e apartidário, desempenhando uma função eminentemente técnica.
  • O BC cumpre melhor seu papel tendo um único objetivo claramente definido, que é o controle da inflação.
  • No curto prazo, a condução da política monetária está sujeita a decisões temporárias que podem ser conflitantes em termos de estabilização da inflação e desvios do produto do seu potencial.
  • Esse potencial conflito impede a clara aferição de resultados no caso de um duplo mandato com metas explícitas para inflação e crescimento do PIB. A dificuldade de aferição dificulta avaliar se a política implementada pelo Banco Central está de acordo com o atingimento de suas metas, isso piora a qualidade da política.
  • Cabe ressaltar, que o aumento do emprego vem com crescimento sustentado. E isso depende de boa gestão do governo como um todo, com política fiscal e contas públicas em ordem, com investimentos eficientes em infraestrutura, educação e inovação e através de outras medidas institucionais nas várias áreas de atuação do governo.

 

6. Qual a sua visão sobre a compatibilidade da política fiscal com a monetária dado que estão sob a tutela de órgãos diferentes?

  • Políticas monetária e fiscal têm distintos objetivos e distintos instrumentos.
  • A política monetária deve ser conduzida com firmeza e perseverança visando atingir seus objetivos, levando sempre em consideração que ajustes e reformas, inclusive na política fiscal, produzirão impactos, ao longo do tempo, sobre a condução da política monetária.
  • A condução de ambas as políticas deve ser harmônica, porém deve ser autônoma.

 

7. O que precisa ser feito para o BCB desempenhar bem seu papel?

  • Acredito que os passos fundamentais nesse sentido estão todos relacionados a fazermos avanços institucionais. Destaco:
  • Estamos trabalhando para que seja aprovado o projeto de lei que institucionaliza a autonomia do Banco Central do Brasil. Estamos avançando nas negociações para que a votação desse projeto aconteça em breve.
  • Várias de nossas ações estão voltadas para aprimorar a eficiência do sistema financeiro com menor custo de crédito. Temos desenvolvido juntamente com o resto do governo vários projetos com esse objetivo, tais como:

– Cadastro positivo.

– Depósito voluntário de instituições financeira no BC.

– Relacionamento BC–Tesouro.

– Relacionamento BC–CADE.

– Criação da TLP para os novos empréstimos do BNDES baseada no juro real da NTN-B de cinco anos.

– Empoderamento das instituições pequenas e médias.

– Incentivo às fintechs.

– Iniciativas para aumentar a competição nos meios de pagamento e tornar o uso do cartão de crédito mais eficiente e barato.

– Novo marco legal punitivo.

 

8. Qual a contribuição que a autonomia do BCB traz para um país?

  • O Banco Central tem usufruído de autonomia de facto e temos que construir uma autonomia de jure. Temos de criar instituições que dependam menos de pessoas e mais de regras. Em particular, temos uma incerteza maior quando há mudanças de governo. Por exemplo, sabe-se que as taxas de juro de mercado dão um pulo em período eleitoral porque se embute o prêmio de mudança. Em qualquer lugar do mundo, mudanças de governo não ocorrem com mudanças do BC. Há mandatos fixos, não coincidentes. Isso dá tranquilidade nas transições.
  • Além disso, a autonomia de jure institucionaliza a autonomia de facto contribuindo para aumentar a credibilidade do Banco Central na condução da política monetária, permitindo aumento da velocidade de convergência da inflação para a meta com menor custo de produto e custo fiscal.

 

9. Como é feita a separação da equipe do Banco Central de interferências políticas para a tomada de decisão independente?

  • Temos tido autonomia de facto na condução da política monetária. Devemos avançar para que tenhamos uma autonomia legal. Este é um avanço institucional importante que protege a condução da política monetária.
  • É preciso deixar claro que estamos falando de autonomia na condução da política monetária; autonomia na tomada de decisões quanto ao uso de seus instrumentos. Isso é diferente de autonomia no estabelecimento dos objetivos a serem perseguidos pelo Banco Central. A decisão que define a meta para a inflação é prerrogativa do governo, através do CMN.

 

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