21/10/2017 (11:55)

Agricultores são estimulados a repor florestas na mata atlântica

Aliar o plantio de árvores nativas da mata atlântica ao incremento de renda dos agricultores, esse é o propósito de um projeto que estimula a reposição das espécies nativas em propriedades particulares. Pesquisadores facilitam o acesso aos interessados através do site onde os plantadores podem encontrar as espécies mais adequadas ao solo.

 

Uma ferramenta que auxilia o agricultor a escolher árvores nativas para inserção na propriedade,

de acordo com a condição de relevo e solo. Esse é

o Sistema de suporte à inserção de árvores na agricultura da Mata Atlântica. Resultado de 12 anos

de estudos em fragmentos florestais, em Cachoeiras de Macacu, no Rio de Janeiro, o site alia o

conhecimento científico dos pesquisadores ao tradicional dos agricultores locais. “Existe uma

mística de que agricultores não gostam de árvores ou que não sabem conviver com espécies

arbóreas, e isso não é verdade. Precisamos efetivamente acreditar no apego que eles têm às

espécies arbóreas como também no conhecimento que eles possuem”, explica a

idealizadora do site, Mariella Uzeda, pesquisadora da Embrapa Agrobiologia (RJ).

 

O estudo que resultou no site Sistema de suporte à inserção de árvores na agricultura da Mata Atlântica, é resultado de uma parceria da Embrapa Agrobiologia com a Embrapa Solos e a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRJ), com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

A intenção é que o produtor consiga aliar o plantio de árvores nativas ao incremento de renda. Por isso, o estudo contempla espécies com potencial madeireiro, alimentício, melífero e ainda aquelas que contribuem para enriquecer a biodiversidade e fertilidade do solo.

“Esperamos atender à demanda de muitos agricultores familiares de plantar árvores para diferentes fins lucrativos e que possam dar às propriedades maior poder de resposta a eventuais pragas, também aumentando a quantidade de polinizadores. Isso é muito importante em processos de transição agroecológica, em sistemas produtivos mais sustentáveis e mais amigáveis à biodiversidade”, acrescenta a pesquisadora

Os pesquisadores sistematizaram as informações da pesquisa, criando um site de fácil acesso e entendimento pelo agricultor. Para chegar às espécies mais indicadas à região, o sistema começa solicitando a condição de drenagem da área, ou seja, se tem uma boa drenagem ou se é suscetível a alagamentos. Em seguida, pergunta se o relevo é plano ou levemente ondulado, para depois pedir o tipo de solo. Por fim, com base nessas informações, a ferramenta fornece ao agricultor cinco listas de espécies de árvores: madeireiras, alimentícias, melíferas, bioatrativas e para fertilização do solo. Cada espécie apresenta uma ficha com informações que vão desde o seu nome popular a algumas características, como sua utilidade e distribuição geográfica.

O sistema foi elaborado com base nas características ambientais e de ocorrência de espécies do assentamento São José da Boa Morte, em Cachoeiras de Macacu (RJ), onde são desenvolvidas pesquisas pela Embrapa. No entanto, ainda que seja fundamentado em um conteúdo referente à Bacia Guapi-Macacu, no Estado do Rio de Janeiro, o site traz informações das espécies e as respectivas áreas de ocorrência, podendo ser referência para inserção de árvores em outras regiões do bioma. “Uma vez que se tenha um solo parecido com os ali descritos, dentro da área de ocorrência da espécie, é possível utilizá-la sem nenhum problema”, enfatiza Uzêda.

Histórico

Começou em 2005 o trabalho desenvolvido com a comunidade. Intenção era verificar o

impacto da agricultura sobre os fragmentos florestais da Mata Atlântica local. “Fizemos

levantamentos fitossociológicos em áreas que eram circundadas por agricultura e por

pastagem. E, no fim, achamos que ter apenas a resposta sobre as áreas que estavam

contaminadas com adubos era pouco para o levantamento. Demos início, então, a um

estudo bibliográfico e etnobotânico, com o objetivo de analisar as potencialidades

das árvores, não só seu potencial econômico, mas também sua

capacidade de adaptação a áreas externas às áreas de mata”, conta a cientista.

 

Diz que a demanda por informações sobre espécies arbóreas nativas que pudessem ser inseridas nas propriedades, partiu dos próprios agricultores, cujo conhecimento foi fundamental para a construção do sistema. “Eles conhecem muito mais de árvores do que a gente imagina. E não há dados acadêmicos suficientes sobre o tema. Conhecemos pouco sobre nossa biodiversidade, e buscamos na comunidade essas respostas. Foram os produtores da região que nos indicaram quais árvores suportavam diferentes tipos de solo quando fora das áreas de mata”, explica.

A ferramenta foi inicialmente elaborada com base em levantamentos feitos em 9 fragmentos florestais da região. Hoje, já há dados sobre outros 6 fragmentos. A expectativa é que em breve sejam utilizados para ampliar a base do site. “O que a gente sempre quis foi tornar os resultados úteis e funcionais para os agricultores, produzindo um sistema que pudesse atendê-los e ser facilmente consultado”, revela a pesquisadora. Informa qu7e já há pelo menos outras 130 espécies para serem analisadas e inseridas no site.

Além disso, Uzêda afirma que o site pode comportar atualizações, inclusive sobre outros biomas. “A ampliação pode se dar, por exemplo, a partir de parcerias com outras instituições que tenham esse perfil de informação e estejam dispostas a fazer levantamentos com agricultores locais. É possível preencher a ferramenta com conteúdos de solos e de arbóreas de qualquer região”, salienta.

 

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