08/10/2017 (00:04)

Estradas com Araucárias já tem 20 mil pinheiros plantados

Projeto “Estradas com Araucárias” alcançou uma linha de 100 km de plantios dessa espécie florestal em divisas de propriedades rurais com estradas. São mais de 20 mil árvores plantadas em linha simples, a um espaçamento de cinco metros, por 68 produtores rurais familiares nos estados do Paraná e de Santa Catarina. Objetivo é ajudar na preservação.

 

O trabalho é fruto de parceria entre instituições públicas e iniciativa privada com o objetivo principal de preservar a araucária, árvore sob risco de extinção. A iniciativa surgiu durante o desenvolvimento do projeto de pesquisa da EmbrapaUso e conservação da araucária na agricultura familiar” e as árvores ao longo das rodovias formam um enorme banco ativo de germoplasma para a conservação da espécie.

A intensa exploração dessa árvore para fins madeireiros e a abertura de áreas para a agropecuária provocaram forte declínio populacional, o que colocou a araucária na lista de espécies ameaçadas de extinção. “A legislação proíbe o seu corte, mas infelizmente, a lei que protege a espécie gerou um efeito negativo. Os produtores rurais, desestimulados, alegando perda de áreas agrícolas e dificuldade em obter autorização caso precisassem cortar alguma árvore, passaram a não plantar araucária e até a evitar o desenvolvimento de regeneração natural”, conta o idealizador do projeto, Edilson Batista de Oliveira, pesquisador da Embrapa Florestas (PR).

O problema fez Oliveira elaborar uma solução. “As áreas de divisas das propriedades com estradas geralmente são pouco utilizadas e poderiam servir para abrigar as araucárias e gerar renda aos produtores, sem prejudicar a atividade agropecuária,” lembra o cientista. “Para atender normas de segurança da legislação, os plantios são sempre realizados fora da faixa de domínio das estradas, mantendo acostamentos e áreas de escapes totalmente livres”, frisa Oliveira.

Absorvendo carbono

Ainda faltava o estímulo para que os produtores aderissem à ideia. A solução veio de uma parceria público-privada que remunera pelos serviços ambientais enquanto as árvores ainda não estão produzindo pinhões. O grupo empresarial de transporte e logística DSR se interessou em participar do projeto como forma de compensar gases de efeito estufa emitidos por sua frota. Por meio dessa parceria, cada produtor recebe mil reais por ano para plantar e cuidar das árvores. O pagamento por serviço ambiental (PSA) será efetuado no período entre 12 e 15 anos, tempo após o qual as árvores começarão a produzir pinhões, que se tornarão a nova fonte de renda dos plantadores. Segundo Oliveira, resultados de pesquisa indicam que, com 25 anos, cada árvore deve ter acumulado o equivalente a 2,4 toneladas de carbono (pouco menos de 100 kg por ano). “Trata-se de um valor alto quando comparado a outras espécies florestais”, declara o pesquisador.

Preservação genética

O projeto tem auxiliado também em ações de pesquisa científica, em especial as ligadas a melhoramento genético, conservação da espécie e restauração ecológica. Um programa eficiente de conservação da araucária depende do resgate de matrizes locais. Por isso, todas as mudas plantadas pelo projeto são fruto da coleta de pinhões feitas nas próprias regiões. Na Lapa, por exemplo, os pinhões foram coletados pelos alunos do Colégio Agrícola. “Nossa intenção é preservar a base genética local”, explica Oliveira, “e, assim, colaborar com a conservação da espécie. As árvores plantadas hoje são um grande banco ativo de germoplasma.”

Em Irati, por exemplo, foram selecionadas árvores com características superiores de produção de madeira e pinhão, consideradas de interesse para conservação, e elas têm sido acompanhadas em projetos de pesquisa da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (Unicentro). Em Caçador (SC), foram selecionadas matrizes do Bosque Modelo de Caçador, uma das regiões de remanescentes melhor conservadas.

Leandro Piska Albanski, filho de produtor rural, conta que entraram no projeto em especial para ajudar na conservação da araucária. “A parte financeira também é importante, mas a gente quer mesmo é ajudar a conservar essa espécie tão importante.” A ideia é corroborada por Amauri Delponte: “Vale a pena preservar, a gente vê o benefício disso e a quantidade de animais que vêm se alimentar”.

Para o idealizador do projeto, localmente, espera-se que o pagamento do serviço de sequestro de carbono contribua para um aumento significativo do número de araucárias, melhorando a beleza cênica e trazendo benefícios ambientais e socioeconômicos decorrentes. O cientista pretende que o projeto estimule a adesão de outras empresas, possibilitando sua proliferação e formando corredores verdes de araucárias. Nacionalmente, os especialistas esperam que o trabalho contribua com as metas de redução de emissões de carbono assumidas pelo Brasil e que sirva de modelo para outros estados com outras espécies também ameaçadas e de importância socioeconômica e ambiental. Oliveira afirma que o projeto tem alto poder de replicabilidade com outras espécies. “Esperamos que o pagamento pelo serviço ambiental contribua para o sequestro de carbono, como uma das medidas para a mitigação do aquecimento global,” almeja o cientista.

 

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