02/10/2017 (20:15)

Brasil negligencia a indústria como fator de riqueza: ABDIB

A indústria é extremamente importante como vetor de geração de riqueza e de crescimento econômico, mas o Brasil tem negligenciado essa destinação. Por isso deve retomar esse destino, pois se não o fizer "dificilmente conseguirá se tornar desenvolvido sem uma indústria forte e com maior teor tecnológico". Fala é do presidente-executivo da ABDIB.

 

ABDIB é a Associação Brasileira da Indústria de Base e o executivo Venilton Tadini é

quem fez essa análise da atual conjuntura industrial brasileira. Disse que o "cenário

não é otimista". Apresentou gráficos mostrando que a participação da indústria de

transformação no PIB atingiu patamar próximo a 10%. Da mesma forma, o indicador

que mensura a complexidade da pauta exportadora é o mais baixo dos últimos 40 anos.

 

Apontou erros de condução de políticas de juros e câmbio ao longo das últimas décadas e ponderou sobre a baixa complexidade da produção industrial brasileira – e porque isso é importante para a riqueza de uma nação.

Qual é o retrato da indústria brasileira atualmente? E a importância dela para a economia no presente e no futuro? Como reverter os números ruins do setor diante de problemas que persistem? Há medidas pragmáticas ou é preciso apostar em soluções horizontais, como reformas econômicas e educação? O presidente-executivo da ABDIB, Venilton Tadini, encontrou oportunidade para discorrer sobre esses temas no 3º Congresso Brasileiro da Indústria de Máquinas e Equipamentos, em São Paulo (170918).

O evento, organizado pela Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (ABIMAQ), contou com empresários e economistas. O painel instigou os palestrantes e debatedores – além de Tadini, o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper; Harry Schmelzer Junior, presidente da WEG; e Mario Bernardini, diretor da Abimaq – a analisar o desafio da produtividade e das novas tecnologias no setor industrial. Desafios macroeconômicos, política industrial e reformas estruturantes acabaram dominando os debates.

 

Importância da indústria

 

Educação e infraestrutura, que são políticas horizontais, cumprem papel importante

na formulação de uma estratégia de desenvolvimento brasileira; estratégia esta que

não existiu nas últimas décadas, segundo Tadini. No entanto, isoladamente, não

conseguirão conduzir o país a um patamar mais elevado de renda se não houver

políticas setoriais. “Indústria é um fator efetivo para aumento da produtividade

e incorporação de inovações, que são motores de desenvolvimento no longo prazo”.

 

Nesse aspecto, para Tadini, a situação é de desespero. Segundo números compilados pelo presidente-executivo da Abdib, a indústria de transformação, que já representou quase 18% do PIB no fim dos anos 70, perdeu espaço e aproxima-se de 10% do PIB. Entre os fatores que justificam essa redução significativa, segundo Tadini, não está a falta de competitividade das indústrias, mas sim a combinação de juros elevados e câmbio apreciado. “Nos últimos 30 anos, houve uma tragédia na condução do câmbio, que foi utilizado para combater inflação”, conclui.

A importância da indústria está clara em diversos estudos, disse. Listou alguns exemplos: relação empírica entre grau de industrialização e renda per capita; produtividade do setor industrial é superior; economias de escala; maiores oportunidades para acumulação de capital; reduz possibilidade de crise no balanço de pagamentos; difusão do progresso tecnológico; e fornecedora de empregos de qualidade.

Papel do Estado – Além da indústria, o Estado cumpre também função essencial. “Não pelo seu tamanho, mas sim pela sua eficácia”, ponderou. O presidente-executivo da Abdib defendeu a redução da participação do Estado naquilo que o poder público faz ineficientemente, mas considerou que cabe ao Estado indicar algumas diretrizes para o crescimento.

Nesse contexto, Tadini ponderou sobre os parâmetros do atual processo de ajuste fiscal. A qualidade do gasto é relevante tanto quanto a qualidade da receita, ressaltou, chamando a atenção dos empresários para o fato de o Brasil ter perdido R$ 350 bilhões de arrecadação e de privilegiar um ajuste somente no lado das despesas.

“A arrecadação tributária declinante é causa ou consequência do ajuste fiscal? Nós temos um problema sério”, provocou, concluindo que o ajuste fiscal, importante e necessário, não pode ser um fim em si mesmo. “Ele é um meio para que se atinjam determinados objetivos que a sociedade deseja”, disse. O presidente-executivo da Abdib lembrou que a redução da atividade industrial em relação ao PIB amplifica a queda da receita tributária.

Deterioração dos termos de troca

 

Tadini mostrou números históricos de preços das commodities, os principais itens da pauta exportadora brasileira, e as consequências para o País, desta dependência. “Há uma deterioração constante dos termos de troca”. Com preços de commodities declinantes, o Brasil precisa produzir e exportar quantidades cada vez maiores de itens básicos para importar o mesmo volume de bens industriais.

 

“Por isso indústria é importante. Indústria dá dinamismo à economia.

Quando for necessário conduzir uma estratégia de maior inserção

internacional, a produção industrial diversificada ajudará na elevação

das exportações e o Brasil não ficaria tão dependente

dos ciclos de preços das commodities”, avaliou Tadini.

 

“O que temos de fazer é recuperar o caráter setorial de política industrial em vez de medidas abrangentes e sem avaliação da eficácia”, afirmou Tadini, explicando que não há sentido negligenciar políticas industriais seletivas com o argumento de que promovem distorções no mercado uma vez que estas distorções são escolhas estratégicas do modelo de crescimento a ser adotado pelos países.

E alertou que economistas e autoridades públicas não devem confundir erros incorridos na instituição de subsídios ou na condução de políticas públicas – como ocorreu nos anos recentes – com a importância destes instrumentos para promover desenvolvimento e crescimento econômico.  “Está claro que houve lambanças nos últimos anos. E, além disso, a política industrial estava desconectada da política macroeconômica”, concluiu.

Complexidade da indústria

 

Tadini ressaltou a importância de o Brasil preservar e recuperar

a força do parque industrial brasileiro, com atenção especial para

a diversificação qualificada da produção e da pauta de exportação,

com incremento de itens de maior complexidade tecnológica.

 

Tadini se escorou no Atlas da Complexidade Econômica e nos conceitos de ubiquidade e diversidade de uma economia que foram formulados pelos pesquisadores Ricardo Hausmann (Harvard Kennedy School) e Cesar Hildalgo (MIT) e na correlação detectada entre crescimento da renda e complexidade econômica.

A partir de dados empíricos, os pesquisadores concluíram que o nível de complexidade e de sofisticação da pauta exportadora de um país é determinante para gerar crescimento econômico e riqueza.

Os dois conceitos básicos para se medir se um país é complexo economicamente ou sofisticado, são o de não ubiquidade e o de diversidade de produtos encontrados na pauta exportadora.

O conceito de diversidade pressupõe produzir itens que são exportáveis para diversos países, enquanto o de não ubiquidade pressupõe que poucos países estão aptos a produzir os mesmos itens.

No Brasil, a distribuição entre produtos de baixo, médio e alto teor tecnológico está estacionada há décadas e a complexidade industrial é declinante nos últimos 20 anos. Isso demonstram números capturados pelo economista Paulo Gala, da Fundação Getúlio Vargas, criando uma espécie de freio-motor ao crescimento econômico sustentável.

Propostas

 

O presidente-executivo da Associação defendeu que haja compatibilidade e harmonia

entre as políticas industrial e macroeconômica, pois a valorização do real em

relação a outras moedas, tem causado perda de competitividade ao longo das últimas décadas às indústrias brasileiras.

A sobrevalorização excessiva do câmbio por período contínuo e prolongado, tem causado

danos irrecuperáveis à economia e à produção industrial no Brasil, disse Tadini. “Propostas

pragmáticas podem trazer algum alívio já no curto prazo e sinalizar uma política para a recuperação do parque industrial”.

 

Entre as propostas, Tadini apontou a adoção de uma taxa de câmbio que estimule a inserção dos produtos manufaturados brasileiros no mercado internacional. Essa taxa, segundo testes econométricos, deveria ser estabelecida entre R$ 3,60 e R$ 3,80.

Outra medida sugerida por Tadini é que seja instituído um conselho para coordenação da política cambial fora da alçada do Banco Central, de forma que a definição da política cambial seja tarefa do Poder Executivo, como ocorre em diversos países, como Alemanha e  Japão.

Defendeu ainda que o BNDES seja preservado como uma importante fonte de financiamento de longo prazo para a infraestrutura e  indústria. A aprovação da Medida Provisória 777/2017, que instituiu a Taxa de Longo Prazo (TLP), não deveria ter alcançado os recursos do FAT, fonte para executar política anticíclica.

Por fim, o presidente executivo da ABDIB defendeu aceleração no processo de redução das taxas de juros e uma nova forma de gestão da política monetária. considera que o aumento dos juros deve ser utilizado apenas para o combate da inflação de demanda.

Além disso, precisam ser descartadas medidas que signifiquem represamento de preços administrados para combater inflação, menos por influenciarem inflação de demanda e mais pelo poder de desencadearem uma espiral inflacionária inercial.

 

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