25/09/2017 (19:30)

Refugiada síria recebe grau de Arquitetura na Universidade do Paraná

Lucia Loxca, 26 anos, é uma entre quase 6 milhões de pessoas forçadas a deixar a Síria devido ao conflito. Vivia em Alepo e cursava o 3º ano de Arquitetura, quando a faculdade onde estudava foi bombardeada. Mas com o amparo do ACNUR, matriculou-se na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde acaba de receber o grau.

 

Apesar de ter passado por momentos difíceis, Lucia se inspira na experiência para ajudar as pessoas que vivem o mesmo desafio do refúgio. Foi um dos motivos que a levou a projetar o Centro de Acolhimento para refugiados que chegam ao Brasil. Prédio incluiu elementos da arquitetura síria, como a “mashrabiya” (muxarabi, em português), um tipo de janela e fachada para proteger contra a luz solar intensa e que também serve como ornamento. Para Lucia, alguns desses elementos não são apenas arquitetônicos, mas uma forma de oferecer acolhimento.

“Pensei nesses detalhes para trazer ao refugiado sírio, por exemplo, um sentimento de familiaridade. Dessa forma, pode ser que ele sinta menos medo da mudança e acredite que logo conseguirá reconstruir sua vida”. Assim explica a obra a nova arquiteta. Agora, com o diploma em mãos, o próximo plano de Lucia é concretizar esse projeto que sonha chamar de “Centro Jouri”, em referência à jouri, uma flor que os sírios costumam plantar no pátio das casas.

No edifício haverá espaço para hospedagem, refeitório, salas de aula, auditórios, assistência médica e área administrativa para lidar com documentação. Base física vai ajudar refugiados a se prepararem para o mercado de trabalho e se integrarem à comunidade.

Lucia já trabalha outro projeto chamado “Yasmin”, com o objetivo de transmitir a cultura e comida local síria no Brasil. Nas horas vagas, une-se ao marido, que também é arquiteto, ppara tocar na banda “Alma Síria”. Canta em shows pela cidade, acompanhada do marido no “alude” e a cunhada no “qanun”, ambos também procedentes da Síria.

Lucia assina o projeto do Jouri Center, Centro de Acolhimento para Refugiados, com características da arquitetura síria

Lucia crê que o acolhimento dos refugiados, pode contribuir de forma positiva à comunidade brasileira. “Muitos refugiados são profissionais qualificados para ingressar no mercado de trabalho e que podem ajudar a melhorar o País”. Pensa que o intercâmbio cultural entre nacionais e estrangeiros é muito enriquecedor e deveria ser estimulado com mais oportunidades.

Contudo, a vontade de viver e de seguir os sonhos foi o que deu forças para continuar. “Para mudar, você tem que acreditar que é capaz. Deixar tudo para trás foi muito difícil, mas naquele momento você entende que o valor da vida não é material, mas sim humano; é a nossa vida”.

A escolha de Curitiba para morar foi estimulada por sírios que estavam residindo na cidade. Quando chegou, com os poucos documentos que tinha, Lucia visitou universidades para tentar continuar os estudos, mas foi recusada por não falar Português.

Mas não abandonou o projeto de vida. Um dia, ao entrar no bloco de Arquitetura e Urbanismo da UFPR, conversou em inglês com o coordenador do curso, professor Paulo Chiesa, para explicar a situação. Semana depois, recebeu um telefonema com a notícia que mudou a própria vida: pelo Processo de Ocupação de Vagas Remanescentes (PROVAR) estaria matriculada.

Provar é um mecanismo que a UFPR possui para que as vagas remanescentes da graduação sejam preenchidas por alunos da UFPR, ex-alunos da universidade e também por estudantes de outras instituições de ensino superior que já tenham concluído graduações, nacionais ou estrangeiras. O processo ocorre uma vez ao ano, sempre no segundo semestre para iniciar no ano seguinte, distribuídas conforme a coordenação de cada curso. 

A UFPR também é conveniada à Cátedra Sérgio Vieira de Mello (CSVM) do ACNUR, desde setembro de 2013, coordenada pelos Professores José Antônio Peres Gediel e Tatyana Friedrich. A Cátedra é promovida pelo ACNUR na América Latina desde 2003 e homenageia o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, vítima do atentado de 2003 em Bagdá, junto com outros 21 funcionários da ONU.

 

A partir de 2014, a CSVM-UFPR executa o Programa de Extensão e Pesquisa

“Política Migratória e Universidade Brasileira”, visando: desenvolver políticas de

acolhimento e de inserção de refugiados e migrantes nos cursos de graduação e

pós-graduação; revalidar diplomas estrangeiros; fortalecer

a autonomia e a qualificação de refugiados, migrantes e apátridas e

as organizações para a formulação de política migratória.

 

Atualmente, 38 refugiados estão inscritos na graduação e 1 na pós-graduação em Direito pela UFPR. São estudantes de diferentes países, como Síria e República Democrática do Congo. Outros 460 refugiados e solicitantes de refúgio estudam português no curso de línguas da universidade. Recentemente, a UFPR publicou edital para ingresso nos cursos de graduação por migrantes, refugiados e pessoas com visto humanitário para o primeiro semestre letivo de 2018 – disponível em https://goo.gl/MHhvxg

Para Lucia, aprender português foi bastante difícil, já que nunca havia tido contato com o idioma. No início, os colegas traduziam as aulas e os professores deixavam que fizesse as provas em inglês. “Isso foi um milagre na minha vida. Foi nesse momento que a minha história começou. Fui bem acolhida entre meus amigos e professores da faculdade”. Determinada a aprender e ser independente, começou a estudar português na UFPR e, 6 meses depois, conseguia comunicar-se com muito mais fluência.

Como forma de incentivo para todos que são obrigados a deixar países de origem, Lucia deixa um recado: “Quando você tem um sonho na vida, jamais deve pensar em desistir. Acredite que você tem o poder de mudar e lute por isso”.

Agora, assim como a execução de um projeto, que vai do esboço à conclusão, entende a vida como um círculo, no qual se vai passar por todos os pontos. “Basta continuar sonhando por aquilo que se ama, por aquilo que você quer, que está no seu destino. Hoje, o meu sonho se tornou realidade”.

 

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