29/08/2017 (14:43)

Produção de castanha cai 70% e preços já são mais que o dobro

Redução de 70% na produção de castanha-da-Amazônia, castanha-do-pará ou castanha-do-brasil, foi registrada pela EMBRAPA. De 20 mil e até 40 mil toneladas, em 2017 não deve passar das 10 mil toneladas. Por isso os preços já saltaram de R$ 50 por lata de 11 quilos (kg) para R$ 120. Pesquisadores admitem que a queda se deve ao regime de chuvas.

 

No início da década de 1990, a produção brasileira de castanha alcançou o ápice e chegou a aproximadamente 50 mil toneladas. Até  2003 oscilou entre 20 mil e 40 mil toneladas, com picos de queda em 1992 e 1996 e de alta em 1995 e 2000.

O preço da castanha é um forte motivador para que os extrativistas entrem nas florestas e coletem os frutos. Em muitas áreas distantes e de difícil acesso, só compensa coletar a castanha a partir de um determinado preço, pois a atividade exige esforço. “Assim, acredita-se que a variação na produção em alguns anos pode ter tido relação com o preço praticado nos mercados locais”, afirma a pesquisadora da Embrapa Rondônia Lúcia Wadt.

Na década de 1990, até meados dos anos 2000, uma lata de castanha era vendida pelo extrativista por aproximadamente 3,7 dólares, com pouca variação naquele período. A partir de 2005, houve uma valorização crescente da castanha-da-amazônia. De 2005 a 2011, o preço de uma lata ficou em torno de 16 reais, ou 8 dólares, com alterações para mais e para menos. A partir daí, observaram-se valores crescentes, como R$ 20 em 2013, R$ 30 em 2015 e R$ 50 em 2016.

 

Nesta última safra, em 2017, a castanha-da-amazônia praticamente

sumiu do mercado, o que fez com que seu preço disparasse, chegando

a valores de até R$ 120 a lata nas florestas do Acre e do Mato Grosso.

No sul do Amapá, um hectolitro (5 latas) chegou a ser comercializado

por R$ 750. “A valorização observada nesta safra é reflexo da queda

brusca na produção, que aconteceu em um momento de crescimento

do mercado”, analisa o pesquisador da Embrapa Amapá Marcelino

Guedes. Há relatos de extrativistas,

que coletam a castanha há décadas, de que nunca viram algo assim.

 

Na Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre, são muitos os casos de prejuízos. Severino da Silva Brito conta que, das 250 latas de castanha que costuma coletar, neste ano ele só conseguiu 13. Uma queda de quase 95%, o que impactou diretamente na renda da família. “Nunca tinha visto isso. Em 50 anos, esta é a primeira vez que cai tanto a produção. São quase 11 mil reais que deixei de arrecadar este ano com a venda da castanha”, relata.

A impressão dos extrativistas foi confirmada pelos estudos científicos. A Embrapa, por meio da Rede Kamukaia, desenvolve pesquisas sobre a castanheira-da-amazônia em parcelas permanentes, nas quais a produção de frutos é monitorada desde 2007, em mais de 1.200 castanheiras nos estados do Acre, Roraima, Mato Grosso e Amapá. Essas parcelas são de nove hectares, e foram mapeadas todas as castanheiras com diâmetro na altura do peito (DAP) maior que dez centímetros e monitorada a produção em todas as castanheiras na fase adulta, ou seja, que iniciaram a produção. Os frutos dessas árvores adultas são contados uma ou duas vezes ao ano, na época da safra.

Durante o período do monitoramento, foram observados picos de alta e de baixa produção, alternando entre locais, conforme o gráfico abaixo. Os anos de 2012 e 2015 tiveram alta produção e pelo menos um local registrou queda nesses anos. Os anos de 2008, 2011 e 2013 foram de queda na produção, mas houve locais em que a produção aumentou nesse período. “O fato é que oscilações são naturais, no geral uma região compensa a outra e o mercado não é tão afetado como observamos nesta safra de 2017”, comenta a pesquisadora Lúcia Wadt.

Produção média de frutos da castanheira medida nas parcelas permanentes da Rede Kamukaia, no período de 2007 a 2017

 

Nesta safra, também houve variações entre os locais do estudo. Por exemplo, queda de 25% no Acre, de 96% no Amapá e de até 99% em Roraima. O que chama a atenção dos pesquisadores é que, sem exceção, na safra de 2017, todos os locais apresentaram queda considerável na produção, fato que nunca havia sido registrado.

Cadê a castanha?

Existem várias especulações sobre quais fenômenos podem ter ocasionado o sumiço da castanha-da-amazônia das prateleiras. Alguns dizem que é o desmatamento que está acabando com as florestas, outros consideram que os polinizadores estão sumindo porque as florestas estão sendo alteradas ou eliminadas. Pesquisadores da Rede Kamukaia ressaltam, porém, que de um ano para o outro não se perdeu 70% das castanheiras e também não houve nada que pudesse justificar a falta de polinizadores nessa proporção. A equipe acredita que alterações no regime de chuvas tenham sido o principal causador desse fenômeno.

 

Estudos ainda estão sendo feitos, mas o pesquisador da Embrapa Agrossilvipastoril Hélio

Tonini lembra que a chuva no início da formação dos frutos é muito

importante para o seu desenvolvimento, e eles levam até 15 meses

para serem formados. Então, a produção da safra de 2017 foi formada

no segundo semestre (verão amazônico) de 2015, um ano de forte

influência do El Niño, quando houve atraso no período das chuvas

em alguns locais da Amazônia e seca extrema em outros, como em

Roraima e no Amapá. “Em Macapá, foram mais de 100 dias sem chuva

no verão de 2015, o que pode ter afetado também o

florescimento das castanheiras”, lembra o pesquisador Marcelino Guedes.

 

Outro argumento importante para relacionar o evento ocorrido com questões climáticas é a escala em que o fenômeno foi observado. A forte queda na produção aconteceu em toda a Amazônia brasileira, com relatos de ocorrência também em países vizinhos. “Nenhum outro fator poderia afetar de maneira simultânea uma área tão grande”, reforça a pesquisadora da Embrapa Roraima Patrícia da Costa.

Muitas cooperativas e associações estão preocupadas com o que ocorreu, mas observações de campo realizadas pelos pesquisadores já indicam que a próxima safra deve ser boa. Ainda não se sabe o que vai acontecer nos anos subsequentes, mas, para Lúcia Wadt, é fundamental manter pesquisas constantes a fim de verificar quais fatores são mais determinantes na produção, além de prever fenômenos como este de 2017 e definir alternativas para superar ou enfrentar os impactos.

 

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