27/03/2017 (18:55)

Tatuagem ganha classes sociais, quer inovar, mas há preconceitos

Tatuagem já conquistou quase todos segmentos sociais. E está à procura de inovações, que vão do design à cenografia, ao teatro. Algo assim é o que se pode observar da representação que faz em Curitiba (sul do Brasil), no Estúdio Galeria Teix (rua Augusto Stellfeld 1581), o francês Olivier Poinsignon. Num laboratório sensorial aproveita o ser humano

 

Nas origens, a tatuagem vem enfrentando preconceitos. Em qualquer parte do mundo está ligada a um choque de culturas. Porém, com o avanço da tecnologia e das comunicações, essas adversidades vão aos poucos sendo superadas; não sem sacrifícios múltiplos. Na Coreia do Norte é uma atividade completamente proibida. Na Coreia do Sul é algo ilegal, criminoso, estreitamente unida aos gangsters. Para poder tatuar a pessoa tem que ser médico graduado e ainda assim, torna-se muito mal vista.

 

Nas Coreias a boa aparência significa muito poder. Mas foi assim a origem dos tatuadores na superconservadora sociedade japonesa de passados séculos. Mostra que cedo ou tarde, os antigos cederão às manifestações inovadoras.

 

Tatuagem e saúde

Bem como ocorre no Brasil, o exercício da atividade de tatuador na França, passa por fiscalização rigorosa.  Normas rígidas garantem inexistência de risco de infecção. O estúdio de tatuagem tem que parecer quase um hospital, tais as exigências de higiene e segurança sanitária.

 

A execução de proposta torna-se quase um rito, tal o número de precauções. Não se inicia sem avaliar reações alérgicas aos elementos que passarão fazer parte do corpo. Quase sempre é boa praxe o emprego de aconselhamento médico.

 

A fiscalização muito rígida restringe um pouco o exercício e permite que os rigores sejam cumpridos e exigidos por parte das autoridades responsáveis e profissionais. É a opinião de Olivier. Entende que a excessiva restrição da atividade profissional, pode impedir até o surgimento de criadores geniais e gerar dificuldade para se conseguir material, com perda de tempo e ganhos.

 

Em Curitiba mostra inovação

 

Assim como o dono do Estúdio, Marco Antonio Teixeira que fez graduação na área artística e design, Poinsignon exibe a seriedade do exercício profissional. Formou-se na escola de Belas Artes francesa e atua há 8 anos. Conta que projeta a vida com a disciplina e culto às liberdades individuais, recebida dos pais. Essa criação se reflete em parte sobre os desenhos e abordagens artísticas que desempenha.

A busca de avanços foi o que levou o tatuador da Teix, Mateus Sari, para o esforço de atrair o francês a Curitiba, de certa forma amparando o movimento. "Ele brinca com diferentes formas de produção. Isso é interessante e também o propósito do fazer inovador, desde o início até o resultado final".

Nesse começo de atividade, Olivier recebeu um casal que desejava se tatuar. Aplicação prática do que diz, resultou que um fez a tatuagem do outro. Mas o principal do exercício, é que ambos concluíram sobre o mesmo tema; a música de Bob Dylan. "Esse processo de conectar as pessoas pelo modo diferente de tatuar, é muito curioso. Querendo ou não as nossas telas são vivas, sentem dor, têm sentimentos, diferentes formas de receber a tinta. Tudo isso é incorporado ao ato produtivo".

 

Mas deixe falar o ator

principal da atividade de tatuar

 

 

Tatuagem dos tribais

 

Não gosto de classificar as coisas de modo estreito. Culturalmente a tatuagem pode ser apreciada em ângulos diversos. A japonesa, mostra os “corpos fechados” de motivos tradicionais e os trabalhos tribais. Esses são os elementos da origem. Europeus e americanos também se expõem através dos próprios estímulos. Mas movimentos artísticos passados, ainda hoje servem de inspiração para muitos profissionais da tatuagem.

 

Interativo observa o ser humano

 

Há um movimento em ebulição que certamente deverá revolucionar a ação dos tatuadores e os reflexos de quem observa. "Para isso  não sou eu quem vai dar o nome". Tatuagem interativa é o que faz, aproveitando o acervo de sentimentos das pessoas com quem interage. "Vou tentando entreabrir a porta..."

 

Verdade é que surge uma nova tendência, "um movimento novo". E a proposta é fazer coisas diferentes lidando com seres que têm sentimentos, os humanos; com vontades próprias. Até agora esse potencial não vinha sendo aproveitado.

 

E o jeito de fazer a tatuagem artística, desenvolveu quando andava de BMX (bicicleta), um meio de locomoção não convencional. "Rearranja espaço urbano conforme as possibilidades do piloto". No exercício da tatuagem é algo semelhante, aproveitando as potencialidades das pessoas, sempre com o objetivo de fazer algo diferente.

 

No Brasil desenvolve três projetos

 

  • Tatuando. Executa tatuagem que é solicitada, usando o próprio estilo.
  • Projeto primitivo; de conexão, esse que está no mural da Galeria Teix. A pessoa escolhe um pedaço, com pequenos cartões que é ofertado, e será essa a parte da tatuagem a executar. Começa realizando enquadramento, conectando as pessoas através de um pedaço do muro. Cada uma terá uma parte e assim vai chegar um momento que os seres humanos podem se reunir e formar a imagem do mural. Isso chama de conexão primitiva; que não é forçada.
  • Projeto de comunicação. É uma espécie de laboratório sensorial. As pessoas chegam no laboratório e compram um dia de trabalho do tatuador Olivier. Para criar essa tatuagem, têm de se comunicar, sem usar a fala. Assim, exibe um caderno, como se fora o guia da experiência. Como não pode ter interação verbal, passa explicar através de desenhos. É um experimento concretizado pelo visual, o toque, a música, outras formas de expressão que não a palavra oral, como sabor, o cheiro. É essa a surpresa.

 

Público já aceita melhor

 

A tatuagem está mais popularizada e alcança todas as camadas sociais. Olivier considera que essa demanda possibilita projetos inovadores e a oferta de algo mais sobre todos os aspectos. E o observador se desperta perguntando: mas o que deseja falar o profissional ou usuário, com essa imagem? E se tem esse algo além, torna a poética mais interessante. Assim a tatuagem se projeta nas ruas, traduzindo pensamentos, opiniões, discurso de tatuador e tatuado.

É dessa forma que a tatuagem de vanguarda, pretende se popularizar, chegar ao grande público. Toda tatuagem tem uma mensagem, mas deseja passar avanços, em termos de arte, poética...

 

A popularização da tatuagem, manifesta por exemplo, o discurso autobiogrático; ou seja, a pessoa quer falar sobre si mesma, contar algo da própria existência, o que vivenciou. E o tatuador consegue passar isso levando a mensagem ao observador. É possível até preservar a tatuagem velha, mal feita. Todas podem ser refeitas.

 

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