31/12/2016 (19:11)

Alfaiataria continua ativa e o alfaiate não vai desaparecer

Alexander McQueen e Stella McCartney em Londres; Paris a casa Coco Chanel (hoje Karl Lagerlfeld), pioneira em costurar para a nova mulher. Outro exemplo francês é Paul Poiret que costura vestidos e casacos. Em Berlim, Alemanha, pode-se encontrar Jil Sander. Em Curitiba Rossafa é tão criativo quanto esses famosos do mundo que simbolizam a indústria.

 

Depois do boom da industrialização das confecções, muitos cidadãos se

cansaram da liberdade fashion e optaram pela alfaiataria. Fazem calças,

paletós, camisas, blazers e até echarpes especiais. Ainda alguns preferem

os costureiros pela grife, mas outros se compensam com a humildade

dos alfaiates, aquele tradicional costureiro do passado; mas não ultrapassado,

lembra o curitibano José Palmieri Rossafa.

 

Ensina o alfaiate que ser elegante é um propósito na vida de certas pessoas. O que veste pode não ser bom na visão de quem olha. Porém quem usa tem que estar satisfeito. Opina que o excesso de liberdade no vestir, pode danificar o propósito da elegância. Pode ser o caso de alguém que traja um elegante terno mas usa sandália ou tênis.

É elegante ainda o que veste roupa com caimento especial, acabamento invisível, barra italiana em calça, abotoadura em camisa de pulso duplo, bolso faca. A roupa refinada e formal é quase sempre elegante.

Para o alfaiate Rossafa, o maior prazer é ver o cliente satisfeito ao vestir a roupa que acaba de ser feita. Há porém aqueles difíceis de satisfazer, que não sabem o que querem e não ficam satisfeitos com nada.

Uma obra de arte

“Uma roupa de alfaiate é o mesmo que uma obra de arte. Uns conseguem vender por bom valor a obra que fez. Outros trocam por um prato de comida”. Acredita que é também uma questão cultural, onde se considera que é melhor aquele que cobra mais alto.

Mas e quando o alfaiate erra? Sofre um sentimento de frustração interior. Assume 90% das situações.

Ao longo de 60 anos de exercício da alfaiataria, Rossafa não aprendeu uma coisa: “vender”. E confessa-se decepcionado. Considera-se realizado pela atividade que começou com 11 anos de idade, no interior do Paraná, Bela Vista do Paraíso. Iniciou com o alfaiate Issao Shikay, em Cianorte. Foi aprender para costurar para a família e gostou.

Para Curitiba veio estudar em 1970, no Colégio Rio Branco e depois Tuiuti. Logo casou com Eliane do Rocio Elias que hoje mantem um instituto de beleza ao lado da alfaiataria na rua Alcides Vieira Arcoverde. Porém voltou para ser alfaiate em Altônia. Tempos difíceis, tentou trabalhar na lavoura, mas logo entendeu que era costurar o destino. Instalou-se em Paranaguá onde trabalhou na alfaiataria de Rubens Marçal Fortunato. Ali absorveu a parte mais difícil: fazer paletó. Chegou a trabalhar até 22 horas por dia.

Depois dessa experiência comprou uma alfaiataria em Altônia, financiada pela mãe (70 mil cruzeiros). “Era igual mais ou menos dois fuscas”. Trabalhou 8 anos, até chegarem os problemas da economia brasileira. Passou 10 meses em Goiânia e ao voltar vendeu tudo e voltou para a Capital em 1985.

Deu para criar os filhos Alessandro José e Claudia Mara do Nascimento, construir casa e viver tranquilo. Passou por 5 endereços até se instalar onde está, ao lado da Churrascaria Per Tutti, à rua Alcides Vieira Arcoverde 791.Também conta clientes que se tornaram amigos e os que atendeu de pai para filho e até neto. “Tudo o que tenho é resultado do meu suor”.

Rossafa professa a discrição: “nunca fico sabendo o que o cliente faz, a não ser que o diga da própria boca”. Rossafa não sabe quantos clientes tem.

Contudo ainda falta realizar um sonho, que é o de criar escolas

municipais para treinar futuros profissionais. A atividade de alfaiataria

começa com o treinamento de habilidades manuais, como chuliar,

algo que hoje é feito pela máquina overloque. Ficou mais fácil.

 

O que é alfaiataria na realidade moderna, diferente das antigas casas?

Em função do custo elevado das roupas feitas sob medida, impôs-se a modernidade. Máquinas antigas eram manuais e não conseguiriam vencer o mercado de vestimenta. A função do desenvolvimento da confecção que se chama pret-a-porter, é multiplicar rapidamente as peças da vestimenta humana para atender a demanda a baixo custo. Qualidade talvez não seja a mesma, porém o custo baixou.

 

Quanto custava um terno para fazer, que hoje custa R$ 150?

Para se ter ideia: era sempre mais que um salário mínimo. O valor de hoje normal seria em torno de R$ 2.000 a R$ 2.500 o terno e R$ 500 a calça.

 

Exigência de multiplicar a produção. Avanço da tecnologia colocou tecidos artificiais, que ficaram mais baratos; fios são sintéticos, o que ajudou na qualidade. Antigamente havia o brim, não tão refinado como é atualmente e a lã. Hoje os tecidos são outros: à base de poliéster. Quando você vai comprar um brim de qualidade, custa uma fortuna. 

Nem sempre isso é cômodo. Há pessoas que exigem tudo de linho, até camisa e quem prefira o algodão. É interessante isso aí. Há o problema de alergia e sofrimento com o poliester que não deixa transpirar. Os tecidos antes eram de melhor qualidade, embora fossem mais grosseiros que os atuais. As lãs antigas tinham fios mais grossos. Hoje são mais finos e fechados. Quem quiser lá pura existe tem que pagar muito caro.

 

 

Ideia de salvar a profissão

"Dizem que a profissão de alfaiate vai desaparecer. Mas essa não é a realidade,

pois tenho esperança que haverá quem queira aprender.

Daí a sugestão que tem, de espalhar escolas de aprendizagem pelos municípios brasileiros.

É bastante difícil mas pode-se pegar 10 meninos para aprender, e multiplicar interessados

em praticar alfaiataria. Rapidez e produção, exigências do exercício profissional,

podem ser encontradas mais facilmente com a tecnologia moderna.

"Hoje quase não tem alfaiate e ninguém quer aprender a profissão porque acredita que não

dá para ganhar o suficiente. Na época que comecei, eramos em 4 meninos.

As famílias colocavam a gente para costurar e não ficar na rua. Atualmente a lei não permite isso".

 

Doenças da profissão

Artrite, artrose, escoliose, dores nos dedos e cotovelos, tendinite nos ombros, são os desafios da profissão. "Nunca me tratei embora tenha me prevenido pouco. Estou sempre em movimento, cuidando de jardim, pintando a casa, sem ficar sedentário". Isso me permite conseguir produção média.

Para fazer um terno leva 2 dias de trabalho; paletó, 17 horas; calça e camisa 2 por dia. Mas trabalho de alfaiate precisa ser isolado, para não se desconcentrar e produzir. "Tive auxiliar que fazia 10 calças". O físico do brasileiro mudou muito. Pessoas estão mais altas e braços mais longos; ombro e peitoral mais amplos. Antes com 2,80 m fazia um terno. Hoje é difícil. Fazia todo dia um paletó. Normalmente o peito era 50 e 52. Hoje vai para 54 a 60.

"Não existe o alfaiate perfeito. Perdi rapidez e qualidade, por fazer muita coisa. É difícil encontrar quem faça tudo. Já fiz até vestido de noiva e de debutante. Hoje tenho mais homens como cliente, mas já tive mais mulheres. Em Santo Antônio da Platina todo ano fazia os vestidos para debutantes".

 

Rossafa ri dos calotes

"Calote sempre tem. Mas passei anos sem perder, embora tenha alguns encalhados ali", mostra um armário cheio de roupa pronta. "Fiz uniformes para uma mulher que interrompeu contato, em Curitiba". Deixou de esperar e doou as roupas para os pobres. Em seguida apoonta para um belo casaco valioso de mais de R$ 3 mil, esperando sobre o manequim.

Decepciona a falta de educação, quando alguém

encomenda e nunca retorna para buscar.

“Nunca vou atrás do cliente que se comporta assim”.

Há penduradas roupas às dezenas; algumas por vários anos.

Quando chega um tempo enche sacolas e faz doações.

“Tem uns caras que esquecem”. Um terno faz 4 anos que espera.

"Há cada um que você nem imagina. Um sujeito chegou aqui um dia com punhado de roupa velha, que davas vontade de jogar no lixo. Tem linho aí? Adoro Linho. Já foi escolhendo calça e camisa. Faz essa aqui nova primeiro depois a gente segue. Vai deixar sinal? pergunta o alfaiate. A resposta: Ah! não! Depois eu passo aquí. MAs já escolado, o costureiro não fez nada do que foi pedido. Quando foi um dia, o cara estacionou o carro e em frente e perguntou se estava pronta a roupa. "Passe aqui o número da tua Conta que depositarei".

 Muita costura feminina

Mulheres: há as que foram casadas e compram muito. "Aí um dia se separam e trazem um monte de roupa velha e pede para fazer novas junto com reformas, para ir a um jantar ou evento. Depois que a gente apronta tudo, trazem mais uma sacola de roupa velha. E dizem: vou pegar o vestido e depois volto para acertar tudo".

 

Alfaiataria desde o século XIX

É um termo usado no século passado para mostrar

um conceito estético diferente no ato de vestir.

Significava luxo e requinte, construído a partir

de recintos onde as pessoas faziam encomendas.

 

A roupa é um sinal social.

Alfaiate é o agente que constrói. No século XIX, na Inglaterra, entrou em voga com o declínio do chamado estilo rococó. Profissionais começaram fazer a roupa sob medida , elegantes ternos e casacos. No início era privilégio dos homens. As mulheres, elas próprias se dedicavam a construir os próprios vestidos com o apoio de conhecedoras da arte da costura.

Quem for a Londres vá à Savile Row, que tem exemplares seculares dessa época e de alfaiataria. Próximos dali estão hoje Alexander McQueen e Stella McCartney. Se for em Paris econtrará a casa Coco Chanel (hoje Karl Lagerlfeld), pioneira em costurar para a nova mulher. Outro exemplo francês é Paul Poiret que costura vestidos e casacos. Em Berlim, Alemanha, pode encontrar Jil Sander

Só mais tarde, com a independência feminina, mulheres começaram a confeccionar blazers, ternos e calças. Inicia aí um conceito novo, que no século XX chegou à postura feminista de igualdade aos homens em tudo. Na vestimenta isso é demonstrado francamente. O processo foi desencadeado a partir da segunda guerra mundial, com a ausência masculina dedicada aos campos de batalha.

Vestidos e anáguas passaram a

ser tarefa também dos alfaiates.

Houve então uma revolução de atitudes e na própria economia. Revolucionou-se a estética em que os desenhos se modernizaram através de cortes, cores e adereços. A indústria começou a produzir em série e a moda assumiu o mundo.

Mas o mundo da alfaiataria mudou. Hoje impera a liberdade imposta pela pret-a-porter, a vestimenta industrializada.  moda é totalmente livre, com destaque para o blazer, camiseta e jeans.

Na opinião dos técnicos o trajar demonstra o gênero e a condição social ou destino. Exemplo é o de alguém que está de terno ou casaca porque vai ao casamento ou à festa. Mas o profissional tem quer ser múltiplo; fazer até anáguas.

 

Alfaiate Rossafa

Telefone (41) 3377-2493

Endereço: ao lado da Churrascaria Per Tutti, à rua Alcides Vieira Arcoverde 791

Horário de atendimento: todos os dias da semana, inclusive sábado à tarde, menos domingo.

 

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