Degelo no Polo Ártico É Maior Que Em Outras Regiões

Cientistas de Potsdam e Madri incluíram em modelos virtuais fatores não considerados em cálculos anteriores e que aceleram derretimento do manto de gelo na ilha ártica. Marca para início do degelo é de apenas 1,6ºC.


Uma nova simulação de computador feita por cientistas do Instituto de Pesquisa das Consequências Climáticas de Potsdam (PIK) e da Universidad Computense de Madri, mostra que o gelo da Groenlândia é provavelmente bem mais vulnerável ao aquecimento do planeta do que se supunha até agora. Segundo os modelos de cálculo mais recentes, o limite de aquecimento global a partir do qual se deve contar com um degelo total fica entre 0,8ºC e 3,2ºC.

A temperatura em que essa hipótese entra em cena se situaria a 1,6ºC acima das temperaturas médias antes da industrialização. Atualmente, já se observa uma diferença de 0,8ºC na temperatura do planeta, apontam os pesquisadores. No caso de o manto de gelo groenlandês se derreter completamente, os cientistas contam com uma elevação de vários metros no nível dos oceanos.

Limite de 2ºC é demais

A Groenlândia é quase 85% coberta de gelo. Com mais de 1,7 milhão de quilômetros quadrados, a ilha representa a maior superfície de água doce do Hemisfério Norte. Modelos anteriores haviam estipulado 3,1ºC de aquecimento global como a marca onde as massas polares groenlandesas começariam a derreter.




Ilha tem maior superfície de água doce da região ártica

Contudo, segundo os cálculos atuais, bastaria aproximadamente a metade dessa elevação de temperatura. E, consequentemente, os 2ºC, considerados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudança Climáticas (IPCC) como o nível máximo tolerável para o aquecimento global, já seriam demais para o gelo da Groenlândia.

Já em 2011, um relatório encomendado pelo Conselho Ártico advertia que o gelo da ilha estava se fundindo mais rapidamente do que previsto. Em consequência, a elevação do nível do mar até 2100 seria também mais acentuada. No relatório anterior, de 2007, o IPCC predissera uma elevação entre 18 e 59 cm até o fim do século. Porém faltavam dados sobre o Polo Ártico. Por isso, os analistas do PIK consideram otimista demais o prognóstico do IPCC.

Efeito de realimentação

O mais recente estudo do PIK baseia-se em novas simulações computadorizadas do manto de gelo da Groenlândia e do clima regional – o qual, parte-se do princípio, se aquece duas vezes mais rápido do que a média do planeta. O minucioso modelo de cálculo leva também em consideração os assim chamados "efeitos de realimentação".

O modelo considera, por exemplo, que alterações nas precipitações de neve e no degelo provocadas pelo aquecimento global acarretariam um aumento ainda maior da temperatura. Pois, até agora, as superfícies brancas de neve e gelo têm refletido de volta para o espaço uma grande parte da irradiação solar. Contudo, se as áreas recobertas de gelo minguarem, a Terra absorverá mais calor, reforçando o aquecimento local.


Fiordes de gelo derretem em tempo recorde


Segundo os pesquisadores de Potsdam, a simulação de computador permitiu calcular corretamente tanto o manto de gelo observado hoje em dia, quanto traçar sua progressão ao longo dos ciclos glaciais passados. Desse modo, foi possível verificar os resultados, através de uma comparação com os dados sobre o clima disponíveis de épocas passadas. Por isso, os pesquisadores consideram suas novas estimativas mais confiáveis do que as precedentes, que não levavam em consideração os efeitos de realimentação.

Danos irrecuperáveis

"Quanto mais depressa ultrapassarmos o limite de temperatura, mas depressa derrete o gelo", assegura Alexander Robinson, principal autor do estudo recém publicado pela revista Nature Climate Change. Caso a humanidade não reduza em absoluto o nível de suas emissões de gases do efeito estufa, ele calcula um aquecimento de 8ºC a longo prazo.




Degelo poderá causar elevação de vários metros do nível do mar

Tal elevação de temperatura levaria, no prazo de 500 anos, ao derretimento de um quinto da superfície gelada da Groenlândia, e a seu quase desaparecimento dentro de 2 mil anos. Robinson explica que, por mais que não pareça, trata-se de um colapso veloz, "comparado com o que tem ocorrido até agora na história do planeta. E provavelmente já estamos nos aproximando do limite crítico". Além disso, cada degelo já ocorrido ocasionou alterações no nível dos oceanos.

"Sob certas condições, o derretimento das massas geladas da Groenlândia poderá ser irrevogável", alerta Andrey Ganopolski, diretor da equipe de pesquisa do PIK. Essa hipótese é apoiada pela concepção de que "as massas geladas são elemento decisivo no sistema terrestre". Se a temperatura média global ultrapassar a marca determinada pelo PIK, "claramente e por longo tempo", a camada de gelo continuaria se derretendo de forma irreversível.